Por que os Filhos Morrem?

19/12/2009

Desde que a Vi foi embora, tenho vivido um turbilhão de sentimentos, vinte e quatro horas, o tempo todo; a maneira como consegui sobreviver foi trazendo-a pra perto de mim e com a escultura, meu avô.

Convivo no mundo dos mortos e se isso é loucura, não importa, é reconfortante também; eis porque eu quero que me visitem e depois que vão embora.

Fico aflita, agoniada pra voltar pro meu mundo, confesso que depois de eles saem eu arrumo tudo, limpo tudo, pra voltar pra minha vida.

Quero das pessoas o que elas não podem me dar e sei que não posso ter, então eu grito, xingo, choro e depois me arrependo; é mais difícil viver no intermediário.

Volto pra quem não me magoa, porque cada vez que eu tento me reintegrar, me machuco; não estou conseguindo conviver com os vivos; se tento me informar do que acontece lá fora, descubro monstros que enchem uma criança de agulhas.

Não me conformo.

A saudade e a tristeza me trazem todos os fantasmas; me fazem ter certeza de que não quero começar mais nada, só penso em terminar o que já comecei.

Não é fácil confessar assim, mas é a verdade e se eu tive que encarar a verdade da morte de minha filha, posso encarar todas as outras.

Não sou forte como pensam, estou mais doente do que acreditava.



Escrito por maedavivica às 09h12
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16/12/2009

Filha querida, quando você partiu dessa terra, eu desejei que você fosse embora pra sempre, não por mim, essa morte é a maior dor que existe, mas por você; não queria que você passasse por um sofrimento que já não precisaria ter.

Deixa comigo a dor, esse fardo eu carrego, vai filha, continue seu destino; aqui só nos resta o tempo e o tempo que te foi negado aqui, talvez seja seu maior motivo de alegria e eu ainda não esteja sabendo.

Tive que me desprender de você, de mim mesma; tive que perder tudo, tudo, tudo, pra que você pudesse ter a oportunidade de seguir em frente; esse sempre foi meu maior desejo.

Dói, dói sim, mais do que se possa ou consiga compreender, só por um filho a gente tem esse desprendimento.

É preciso cuidar desse amor com muito cuidado, essa ligação ficou mais delicada, mas não mais frágil; são quatro anos de uma tristeza explicável, de uma saudade compreensível, para essa morte humanamente inaceitável.

Te amo filha, exatamente como te amei todos os dias.


Escrito por maedavivica às 09h10
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14/12/2009


Escrito por maedavivica às 11h23
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Sinto falta de coisas que já vivi, mas a saudade é diferente; é diferente da dor, da falta que a gente sente; saudade é buscar o filho distante pra bem perto da gente.

É acariciar a pele que só a gente sente; é olhar nos olhos, entrelaçar os dedos; embalar o filho no colo mesmo que ele esteja ausente.

A saudade plasma um filho pra que ele se faça presente.

Saudade é deixar que ele ande pela casa, que reconheça seus pertences; saudade é permitir essa passagem porque a gente sabe que ninguém morre pra sempre.

Não é nenhum mistério essa presença tão sentida, porque o coração de mãe entende que a alma se estende pra muito além da vida.


Escrito por maedavivica às 11h22
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26/11/2009

Tenho medo

Quando amanhece tenho medo do dia, quando anoitece tenho medo da noite; além da eterna solidão, não uma simples solidão, mas a solidão de quem já teve.

Ter medo dá medo.

Medo constante de sair, de ficar; de dizer, de calar; de lembrar, de esquecer; tenho medo o tempo todo, mas nunca soube o porque; medo de sonhar e de ter pesadelo; medo de sentir raiva e de sentir amor; de ter e não ter ou de já não me importar; medo de perder os que eu tenho porque eles vão embora também.

Medo foi a primeira sensação que eu tive e ainda não sei explicar; é medo do presente, do conhecido; medo do ficar.

Quando uma cabeça é cortada, o corpo continua andando e assim aconteceu comigo; cortaram minha cabeça e eu continuei em disparada, desvairada, sangrando.

Depois todo o sangue circulou; cai definitivamente e, pode parecer estranho, mas é a única sensação boa, a de se deixar ficar; de poder se desvincular de quase tudo; tirar da minha vida todo o excesso, o desnecessário; diminuir consideravelmente minha bagagem é um alívio; é o começo do descanso.



Escrito por maedavivica às 08h09
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17/11/2009


Escrito por maedavivica às 08h56
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O verde forte, austero, domina a paisagem; uma única flor parece pender do céu, borboletas quase invisíveis, a natureza em miniatura, essa é minha visão de um túmulo.

É algo que não existe de verdade, mas não é sonho ou pesadelo.

Tudo roda e voa na minha cabeça; meus pensamentos viram pássaros; finjo que não me importo com certas coisas, como finjo que vivo.

Pareço estar em outro cenário. Me desconectar é alçar vôo, buscar outras planícies e que horizonte se apresenta mais bonito do que uma dimensão mais adiante; quanto mais leve me sinto da carga da vida, mais próxima estou da minha filha.

É como se um raio descarregasse minha energia na terra; sou sugada pra dentro de mim; sinto o choque percorrer meu corpo e queimar minha alma.

Vivo numa outra atmosfera; dentro de mim florescem o amor e o ódio; a vida e a morte; é como querer enfim, deitar na terra, acompanhar o tempo em que vive minha filha.

Se são ossos, que eu seja ossos; se são anjos, que eu me torne um, mas viver assim em dois lados diferentes é como não ser nada em lado algum.


Escrito por maedavivica às 08h54
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14/11/2009

Pic, pic

Eu tenho saudade de tudo.

Muitas vezes quando eu pegava o espelho pra apertar cravos e espinhas, a Vi dizia: “vô apetá sua bulinha”; seus dedinhos nem sabiam o que estavam fazendo e com a boquinha emitia um som de “pic, pic”, como se estivessem estourando; depois  ela dizia: “agola eu”.  Naquela pele perfeita de bebê ainda, eu fingia que estava apertando seus inexistentes cravinhos e também dizia: pic, pic.

Saudade é o momento que dura para sempre.


Escrito por maedavivica às 16h54
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10/11/2009

A gente sabe que ninguém é de ninguém, mas um filho é; um filho é seu pra todo o sempre; você pode ter cem anos, ele oitenta, mas ainda assim é seu filho e vai te chamar de mãe.

Perder esse elo, essa ligação tão intima é como cortar o cordão umbilical durante a gestação.

Perder esse som revigorante, MÃE, que te faz ser mais valente do que você realmente é, mais hábil, mais sincera; que te faz ter mais energia, mais caráter, mais responsabilidade; que faz com que você faça o que normalmente não faria, é perder a própria vida.

A ligação de mãe e filho é eterna e espera-se que ele sinta sua falta nesta terra; acredita-se que ele te leve ao tumulo; o contrário é insuportável porque filho não pode morrer; filho nem cresce...

Filho pode ter vida própria, ser bem sucedido, pode ter um metro e noventa, pesar cem quilos; filho pode estar distante, pode ter te esquecido; filho pode até ser bandido, mas é seu filho.

Sempre e, atrás daquele semblante de adulto, terá aquelas bochechas gostosas, aquela carinha de criança, então porque eles morrem?

Quebrou-se o vinculo, partiu-se; levou com ele nossa alma; pra mim sobrou o corpo, pra minha filha o espírito; e enquanto viver, não posso permitir que essa última ligação se perca, não posso deixar que ela morra de novo antes de eu morrer.


Escrito por maedavivica às 07h51
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08/11/2009


Escrito por maedavivica às 07h59
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Estou aqui filhinha e como sempre pensando em você.

É domingo de manhã e estou livre do barulho urbano, insano que é o comércio; amontoado de gente, milhões de ofertas, gritaria de vendedores chamando a freguesia; sinto e ouço freneticamente tudo o que eu já não preciso, do qual não faço mais parte.

Posso enfim, mais do que pensar, sentir; o silêncio me traz o lado mais doce de você, é a suavidade, a leveza, o bem estar de sua presença.

Digo sempre que você é o maior amor que eu senti nessa vida, não poderia ser maior ou mais intenso, mas te amo como você era, confesso que não consigo amar ainda o que você se tornou, meu anjo na terra, é surreal, é mitológico, é desumano amar a ausência.

O amor de hoje é magoado pela saudade e pela incompreensão. Fomos traídas por sua morte repentina e isso faz com que eu ame amargo; fica o gosto do que é passado e eu só consigo amar dessa maneira.

Me sinto enterrada viva, morta de tudo, porque tudo era você e pequenos sorrisos que suas lembranças me trazem, são como uma homenagem à minha filha querida que eu sempre quis ter, você.

 

 


Escrito por maedavivica às 07h58
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03/11/2009

Está sendo muito difícil esta jornada...

Esses quatro anos equivalem a quarenta, quatrocentos, sei lá... Sei que vou seguindo como burro carregando a carga, sem outro objetivo maior, senão percorrer a estrada.

Burro, burro que apanha no lombo, leva chibatada; burro de olhar baixo e tristonho, cujo único sonho é a chegada.

Esse tempo tem me marcado o semblante, me enchido de pancada; sou como mula empacada carregando a vida que não vale mais nada.

Acordei mais enlutada do que nunca, mas sei que a dor é mortal, é terrena, um dia acaba.


Escrito por maedavivica às 07h10
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31/10/2009

Eu não sei exatamente quando e de que maneira eu percebi que aquela vida tinha acabado; talvez por isso eu não tenha me importado com coisas materiais; eu não seria mais feliz ou estaria mais consolada abraçando uma blusa da Vi ou convivendo com o que era dela.

As coisas materiais só tornariam mais difíceis uma convivência totalmente diferente e nossa própria espiritualidade. Eu a tenho de uma outra forma e tento pensar que de uma maneira mais elevada.

Se existe ou não uma outra vida, realmente já não importa, importa a vida que temos agora; se é fé ou loucura, não me perguntem, mas nem a fé nem a loucura vem de graça, elas vem do desespero.

De qualquer maneira eu quis, precisei e fiz nosso mundinho particular; eu a trouxe pra casa de um jeito possível. Dói, continua doendo e vai doer pra sempre, mas o que mais eu poderia fazer?

Ainda luto com a impotência, com a dor de sentir que lhe foram tiradas tantas alegrias, experiências; tantas coisas, mas o que são essas coisas afinal? Dizem que vida e morte são apenas uma ilusão e eu venho tentando encontrar o caminho para esse outro lado.

Mas, nada e apesar de tudo, diminui nossa saudade.

 


Escrito por maedavivica às 10h32
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26/10/2009

Filhinha, estou apavorada... Deixa eu te contar tudo.

Há alguns meses comecei uma escultura no atelier da Rosalva, uma cabeça de uma mulher sorrindo, detestei e ficava perguntado: tá rindo de que? Abandonei a peça até a semana passada quando a trouxe para casa.

Fui trabalhando nessa peça e de repente senti um choque; ela se parecia com você; não soube definir bem se eram os olhos ou o sorriso, mas parecia que você estava ali de alguma forma.

Pensei: vou tentar retratar a Vi, mas aí a dor começou; filhinha, não consegui me lembrar de você... Pequenos detalhes de sua fisionomia sumiram da minha cabeça; acho que não ficava tão desesperada e descontrolada assim há muito tempo.

Como posso me esquecer? As formas se embaralhavam em minha cabeça, ora a boca, ora os olhos; parece que tudo se misturava. Sua tia disse que eu não me esqueci de você, só não estou ainda preparada, talvez...

Não sei dizer se é a dor que continuo sentindo, se é a saudade que aumenta a cada dia; talvez eu não esteja mesmo preparada pra lembrar tão detalhadamente de você; sei que estou apavorada, com um medo terrível de ter me esquecido.

Cada poro de seu corpo era importante pra mim, então, como não me lembro?  Talvez seja mesmo um bloqueio; até onde a dor pode chegar, o quanto consigo suportar; não sei filhinha, não sei...

Cobri a peça, não sei o que fazer com ela, não consigo desmanchar, não consigo prosseguir. Filha, o que minha vida e sua morte estão fazendo comigo; um enlouquecer tão vagaroso e um esquecer tão rápido; nunca vou estar preparada pra perder você, mas esquecer?

Eu me lembro de cada segundo em sua vida, me lembro do seu rostinho no minuto em que você nasceu, mas talvez já não me lembre de todos os detalhes, não pra retratar você.



Escrito por maedavivica às 08h36
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21/10/2009


Escrito por maedavivica às 08h58
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