Por que os Filhos Morrem?

09/10/2008


Escrito por maedavivica às 08h20
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Durante todo esse tempo já ouvi de algumas mulheres ou percebi no olhar, aquela frase: Ah se fosse comigo eu morreria.

 

A facada vai direto ao coração.

 

Porque eu não morri? Que ser humano mais miserável sou eu que sobrevivi? Fui mesmo uma boa mãe e amava de verdade minha filha? Amava sim, com todas as células e por todos os poros.

 

Hoje, já não me magoam essas palavras; viver da maneira que eu vivo é um castigo enorme e percebo que, até nisso, algumas tiveram mais sorte e conseguiram partir. A grande maioria vive, aos trancos e barrancos, mas vive.

 

A sensação da morte ronda quem perdeu o filho, então vivo a cada minuto sabendo que pode ser o último e isso, de certa forma, me faz viver. Me faz, por exemplo, levantar da cama e visitar meus pais.

 

Penso, hoje pode ser meu ultimo dia, então quero a casa arrumada, as plantas cuidadas; quero ter tido a chance de ver meus irmãos, de telefonar para um amigo.

 

Eu mesma já não me julgo, tirei do coração uma carga enorme de culpa e isso abriu espaço pra amar ainda mais.



Escrito por maedavivica às 08h14
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06/10/2008

Eleição... fico pensando o que isso tem a ver comigo agora...

 

Do meu cantinho vejo tudo muito distante, mas é preciso votar, então busco aquela pasta “documentos” e sei que ali estão os documentos da minha filha e nada mais é tão humanamente cruel do que ter documentos guardados.

 

O registro de uma vida, números que identificam alguém que passou por este planeta e esse alguém tão bem documentado era minha filhinha.

 

Eu tenho que ir até lá e definir minha preferência por algum candidato, mas quem são eles? O que eles prometem? Que diferença fazem agora em minha vida? Minha filha tirou o Titulo de Eleitor aos dezesseis anos, como se soubesse que aos dezoito não votaria.

 

A pasta parece pegar fogo em minhas mãos; a tristeza é tão grande que parece que o ar se desloca ao meu redor deixando o vazio; chego a sentir tontura. Abrir aquela pasta é rever uma vida, mas com a frieza de apenas registros.

 

É contraditório ter que cumprir esse dever; é como sair lá fora e dizer: estou vivo, quando não se está. Fico ali parada, esperando minha irmã e pensando que talvez esse seja um dos últimos baldes que eu tenha que chutar.
Escrito por maedavivica às 09h20
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01/10/2008


Escrito por maedavivica às 08h38
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Acordo, olho o relógio e são cinco e quinze da manhã, lembro que sempre detestei acordar cedo; penso tanto em tantas coisas que parece que muitas horas se passaram; olho o relógio novamente e são vinte para as seis.

 

Quero sair um pouco de casa, mas o prazer de ver roupas e sapatos nas vitrines eu perdi; quem sabe a farmácia, sempre precisamos de remédios, mas não, tenho mais do que o suficiente; a padaria é bem longe pra ir buscar só dois pãezinhos e as poucas vezes em que fui até lá, pra compensar a viagem, comprei muito mais do que precisava e, como são perecíveis, comi mais do que deveria.

 

Vou telefonar pra alguém, mas todos os alguéns que eu conheço estão trabalhando; não vou amolar ninguém em seu local de trabalho, deixo pra telefonar à noite e à noite acho que todos estão felizes, jantando, conversando, descansando com suas famílias; não vou impor a eles a minha dor.

 

Mães do grupo... às vezes fico cansada de só ver tristezas, a cada dia mais mães enlutadas aparecem no grupo e todas com histórias horríveis de perdas inconsoláveis. Sou solidária a essa dor conjunta, mas o que dizer a elas se eu mesma não me conformei.

 

Profissão eu não tenho; volta então a idéia do voluntariado, mas percebo que ainda não consegui encontrar o fio da meada; esse é um grande problema, o recomeçar; a vida se tornou pra mim um constante agora e agora não é ainda a hora de recomeçar; não sei onde buscar apoio, de onde tirar mais forças.

 

Você pode achar que sabe de tudo, que tem o controle, que pensa e age como deseja e que faz o que quer, mas a vida te dá uma pernada, te joga no chão e não te ensina a levantar.

 

Sou só um bebê nessa dor e não aprendi ainda como engatinhar. São seis e quarenta e cinco...
Escrito por maedavivica às 08h29
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28/09/2008

Minha menina

 

Ontem foi meu aniversário e eu fiquei pensando em quantos mais terei que enfrentar; quantas datas tão significativas pra nós terei que passar sozinha; falta o meu outro lado; falta a vontade que eu já tive de ser feliz; logo depois é o natal e eu não consigo imaginar como terei vivido três anos sem você; é  muito peso, muito pesar; três anos... onde estou que não os vivi; como tudo tem passado por mim sem que eu perceba.

 

O que mudou nesse tempo foi a maneira de sofrer, só isso; se o choque passou, ficou o choque de só poder lembrar; nada mais vem de você, nada se criou, nada se modificou, nada mais aconteceu; tenho que viver com o que você era e aí descubro onde estou, no passado... e, por melhor que sejam as lembranças, queria poder descobrir em você novidades.

 

Será que você já usaria maquiagem? Será que teria cortado os cabelos? Ainda gostaria do azul ou teriam mudado os seus gostos? Você estava tão feliz por ter sua conta no banco, mas nunca assinou o primeiro cheque. Queria poder te levar ao dentista, queria simplesmente poder te acompanhar ao cabeleireiro; queria poder discutir com você, reclamar, brigar, gritar; qualquer coisa filha, menos esse silêncio, essa falta que completa todos os espaços.

 

 ... é isso filha, hoje, queria poder gritar essa dor que não acaba.

 

Nossa vida passou muito depressa e agora meus dias se arrastam; amanhece e anoitece, amanhece e anoitece e eu penso em você, sempre, em cada detalhe, no que você foi, em quem você... era...

 



Escrito por maedavivica às 11h00
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25/09/2008

Já acordo com os olhos inchados de tanto chorar.

 

Li um texto de autor desconhecido, sobre uma mãe tentando explicar à filha os problemas que ela enfrentaria ao decidir ser mãe.

 

Enquanto lia, pensava na conversa que eu nunca vou ter com minha filha. Pensava na notícia que nunca viria: mãe, estou grávida... Pensava nos sonhos que eu tinha de ver meus netos correndo pela casa. Eu queria ser aquela vovó gostosinha que faz o bolo da tarde; a vovó alegre que ajuda os netos a fazerem bagunça; a vovó maluca que aperta as bochechas e beija e beija suas crianças gorduchas e rosadas, limpas e bem tratadas e ouvir minha filha dizer: mãe, você estraga essas crianças.

 

Porque não tivemos esse direito? E quando me dizem: foi melhor assim, eu me pergunto, melhor pra quem? Quando me dizem, já passou, eu me pergunto, passou pra quem?

 

Queria saber pra quem vou contar as histórias que aprendi na infância, musicas que cantávamos; pra quem eu vou ensinar o que acredito ser certo ou errado. Quem eu vou lambuzar de sopa e ver engatinhar. De quem eu vou ver nascerem os primeiros dentinhos, dizerem as primeiras palavras.

 

Queria saber pra quem vou deixar minhas lembranças e os sonhos de netos que eu nunca vou ter, filhos da minha filha que morreu prematuramente. Tudo o que eu senti, lendo esse texto, foi a dor aguda do que acabou pra sempre.
 
Escrito por maedavivica às 10h33
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21/09/2008


Escrito por maedavivica às 10h17
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Aprendi....

 

Existe um limite entre nós e a espiritualidade e precisa ser respeitado.

 

Eu respeitei minha filha durante toda sua vida e em todos os sentidos; o que ela era, o que fazia, o que sentia, suas decisões, suas escolhas; vou respeitar sua nova vida.

 

Estou com ela em meu coração, dia e noite, nas minhas conversas com ela, nas minhas lembranças e isso deve bastar para essa vida.

 

Todas as vezes que eu procurei minha filha através da psicografia, recebi o vazio e a desilusão. Pra que se ela está comigo o tempo todo? Pra que esse desgaste físico e emocional que me dá dor de estômago e dores de cabeça?

 

Pra que se a ligação entre nós duas é a mais perfeita?

 

A próxima mensagem será nosso encontro, o abraço interminável, o beijo mais longo, o olhar nos olhos que diziam tudo.

 

Talvez essa seja a mensagem que minha filha quer me passar: Fique calma mãe, nos veremos em breve. Porque a vida, apesar de tanto sofrimento, é breve, ela passa todos os dias.

 

Tenho escrito aqui toda a minha dor, tudo o que sinto e ela me responde dizendo: Estou aqui. O que mais importa, o que mais tem valor tão grande além dessa nossa ligação infinita?

 

Minha amada filha, tenho que viver com sua morte, mas não tenho que viver sem você.
Escrito por maedavivica às 10h14
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17/09/2008

Os lírios nunca mais nasceram em nosso vaso, eles estavam tão lindos que seu tio pensou que fossem artificiais, depois que você nos deixou, nenhum lírio teve vontade de nascer e a vida ficou como no inverno, às vezes o sol aparece, mas sempre frio e desbotado.

 

Nunca mais serei verão.

 

Quando eu vejo, até mesmo em propagandas, meninas experimentando jeans, escolhendo cores de esmaltes, rindo e conversando, me vem uma tristeza enorme, uma saudade da nossa rotina; nunca, ver alguém depilando as pernas ou tirando as sombrancelhas, foi tão triste.

 

O simples fato de alguém sorrir me faz pensar, porque ela e não você? Sei que é horrível pensar dessa maneira, sei que você não deve ficar contente com isso, mas perder você me transformou nesse monstro que deseja que tivesse acontecido com outra; sinto tanta dor que me esqueço de ser uma boa pessoa. Desculpe, minha filha.

 

Não sei se havia uma escolha, se já estava destinado, não estou preparada, por mais que eu insista, a desvendar mistérios; fico, desde o principio, conectada a você, deixando aberto esse canal pra nós duas, mas isso é o máximo que consigo, porque não suporto pensar em você como sendo um espírito.

 

Não suporto saber que você tem outra vida, está em outra companhia, sinto ciúme de quem está convivendo com você, porque mesmo que eu vá te encontrar, esse tempo não volta, está perdido e eu estou perdida aqui sem você.

 

Você vai ser sempre minha filha, eu vou ser sempre sua mãe, mas estão acontecendo duas vidas ao mesmo tempo e nas duas estamos separadas.


Escrito por maedavivica às 19h58
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16/09/2008

Disse uma vez que a solidão tem diversas formas, mas tem diversos sons também; ruídos normais que eu não percebia quando minha filha estava aqui.

 

A madeira estala em meu armário, em minha cabeceira e no criado mudo, o relógio tictaca o tempo no som do escuro.

 

A água borbulha no café que eu faço, a fritura canta, a panela de pressão chia no som do espaço.

 

O tiritar de dentes com frio, o coração pulsa no ouvido, o estômago ronca no som do vazio.

 

O ventilador tem seu próprio ruído, a porta range, a tv fala o som do desconhecido.

 

O roçar de tecidos, o gotejar da água, a cama que geme no som do sem sentido.

 

Um inseto bate as asas, o vento assobia, meu coração sussurra no som do dia a dia.

 

Em meio ao insignificante, um som é constante, o som da saudade da minha filha; sinto de maneira muito intensa, uma respiração que não é minha, um olhar que vem de fora no som de uma presença.
Escrito por maedavivica às 08h01
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10/09/2008


Escrito por maedavivica às 10h49
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Tem coisas que a gente nunca diz, nunca, nunca, mas nós sentimos; é o segredo das mães enlutadas, um milésimo de segundo onde se vislumbra o horror do inferno; sabemos o que acontece pós-morte. Um silêncio medonho fica depois dessa imagem e vem então a tosse compulsiva e a vontade de vomitar.

 

Estomago, intestinos, útero, tudo se contorce na dor de ter perdido o filho; o organismo inteiro, todo o sistema reage a essa perda; a fraqueza nos joelhos, o caroço na garganta, o cansaço; o corpo todo inflama, mal cicatrizado; aquele minuto em que a gente pensa, não vou agüentar... e tem vontade de dar um fim a tudo.

 

Eu grito calada, grito o mais alto e o mais forte que posso pra dentro de mim, porque aos outros não interessa a nossa morte; engulo seco, uma dor que desce como espinhos e deixo que a saudade ocupe todo meu espaço. A saudade é física, fica presente em nossas entranhas porque um filho nunca deixa nosso corpo inteiramente.

 

Imaginar a morte como ela realmente é faz com que se busque um paraíso e não importa como ele seja, a maneira como é descrito, o tamanho ou a beleza, porque pra nós ele é qualquer cantinho onde podemos abraçar novamente nossos filhos.

 



Escrito por maedavivica às 10h45
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07/09/2008


Escrito por maedavivica às 08h54
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Filha querida

 

Tem horas em que eu não penso em você, fico alheia a tudo; acho que é quando meu espírito descansa. Perco o som do universo e aumenta ainda mais a distância que existe entre o céu e a terra, mas alguma coisa sempre me traz de volta, sempre uma lembrança...

 

Eu ia te encontrar todas as noites, às vezes estava tão cansada depois de um dia inteiro na cozinha, mas não reclamava porque era uma alegria ver você chegando; de longe eu via seu rostinho e você estava sempre sorrindo; se destacava de todos os outros como se só existisse você.

 

Às vezes o ônibus se atrasava e meu coração disparava de ansiedade; cinco minutos, dez minutos e depois disso eu começava ficar nervosa; era quando eu percebia o tamanho do mundo; parece que ele é gigantesco quando se está longe do filho.

 

A impressão do redor, uma sensação que não percebemos quando estamos no ninho. Em casa, o mundo volta a ser pequeno. Nosso mundo, pequeno e gostoso. Hoje, perdi a noção de tamanho; nós éramos um todo e pertencíamos a um lugar.

 

De repente....ainda acordo e digo, não é possível.

 

Desde julho, quando você completaria vinte e um anos, eu tenho tido fortes recaídas; não sei porque, não é diferente dos vinte ou dezenove, é só mais dolorido; não chegar nem à maturidade... Sabe, minha bonequinha, a saudade só aumenta, porque é uma saudade do que se teve e do que nunca se vai ter.

 

Falam muito nas cinco fases do luto e cada um explica de um jeito: Choque, Negação, Aceitação, Dar sentido à perda, Fim do luto; em outro site encontrei: Choque e negação, Raiva, Barganha, Depressão, Aceitação.

 

Fim do luto? Aceitação?

 

Tudo muito fácil de entender, mas difícil de aceitar; quem perde um filho sabe que só existe o horror, o desespero, a inconformidade e a saudade e todas essas fases vão ficar para sempre.



Escrito por maedavivica às 08h49
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