Por que os Filhos Morrem?

30/06/2009

 

Algo aconteceu no domingo... no aniversário de minha irmã.

Há muito tempo eu não ia à casa de meus irmãos, como já disse, a reunião familiar me machuca; é difícil participar de qualquer tipo de conversa; eles são o presente e o futuro, eu sou o passado.

Ali sentada, percebo mais uma vez o meu casulo; é como se visse toda a cena à distância; longe também ficam as vozes e as conversas; me esforço para participar, mas parece que estou muitos passos atrás do que estão falando ou muito à frente do que está acontecendo.

A verdade é que às vezes parece um eco do que já aconteceu. Procuro me manter calma e sorridente, mas sinto que não tenho mais um lugar definido e me distancio no meu mundo; vejo bocas se movimentando, olhos piscando, mão se mexendo e já não entendo; estou dentro de mim.

De repente, meu irmão sussurrou em meu ouvido: eu te amo; foi como se uma enxurrada invadisse meu coração; muitas vezes eles já me disseram isso, mas não sei se foi pela maneira inesperada e amorosa como foi dito ou por ter sido arrancada inesperadamente do meu mundo, mas tive a impressão de ter ouvido duas vozes; gelei.

Havia no fundo alguma coisa a mais, um som, uma imagem,  que eu podia jurar ser a Vitoria.


Escrito por maedavivica às 09h20
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26/06/2009

Em minha opinião, morreu uma criança triste; alguém que nunca conseguiu lidar com o que era ou o que tinha. Eu gostava do velho menino; ganhei da Vi um cd duplo com as melhores musicas, Billy Jean era nossa favorita e nós ouvíamos, cantávamos e dançávamos. Acredito que agora ele se conheça e se aceite e cante e dance feliz com minha filha.


Escrito por maedavivica às 11h52
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25/06/2009

A vida é como uma roda gigante, mas não é um parque de diversões; ninguém passa por ela de maneira impune; parece mesmo o castigo, o pedido de misericórdia.

Ela é alucinante e maravilhosa e quanto mais penso na beleza da vida mais tenho raiva da morte.

Perder um filho é como um grito horrorizado que ecoa pra sempre em nossos ouvidos; morte, morte, morte, não sai de dentro de nós, fica impregnada.

É o circo de horrores; o looping definitivo.

De ponta cabeça, suando e gemendo; gritando e chorando, você continua brincando sem vontade nenhuma de brincar; e sobe e desce, sobe e desce; gira e gira, sem sair do lugar.

Viver assim atordoada, abobalhada, desatinada, talvez seja o gatilho da sobrevivência; alguma coisa nos anestesia, nos embala em um misterioso celofane, porque, sãs, inteiras, lúcidas, já teríamos deixado essa brincadeira.

O que nos prende à terra, talvez seja o amor ao filho, a lealdade ao compromisso, o respeito a quem nos deu vida; um “sei lá o que” que nos mantém vivas ou talvez sejamos apenas como os hamster vivendo nessa roda.


 


Escrito por maedavivica às 09h06
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23/06/2009

Já faz tanto tempo que eu perdi até a esperança de parar de sofrer; parece que eu me conformei, não aceitei, mas me conformei em viver. Qual a outra saída?

A saudade, as lembranças, o desejo detê-la aqui, assim como determinadas datas, não ajudam a ir em frente; não se esquece um filho como se fosse um romance antigo.

Revivo e revivo as mesmas lembranças porque não há novas situações a serem recordadas.

Triste é saber que todos os meus dias serão tristes; entender que a morte aconteceu, está concretizada e que o “eu” sobreviveu à tragédia.

Já quis acordar Maria, Joana ou Letícia, tanto faz; já quis sair de mim mesma e começar outra história, mas sei que essa é minha vida; sei que esse ser deformado e incompleto respira; sou eu, quase do jeito que eu era; sou a mesma velha Celia!

Tenho vivido diariamente uma vertigem, uma desembalada pela ladeira, aqueles momentos estonteantes em que não se sente nada, apenas a vida passa inteira pela cabeça.

E nessa queda desenfreada vem o mal estar, o enjôo, a tontura; vem o fato de não me sentir a mesma, tonta com tantas lembranças, com a complexidade de tantos sentimentos diferentes.

Cheia, completa, repleta de passado. Isso leva à exaustão, ao cansaço absoluto.  Se criar um filho é trabalhoso, perder um filho exaure todas as forças; liquida um ser humano.

A cada dia estou menor, mais lenta, baixinha, baixinha...


Escrito por maedavivica às 09h06
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10/06/2009


Escrito por maedavivica às 08h05
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Axô nenê....

As mães alem de mães são donas de casa, são profissionais, são os meios de transporte, educação e saúde de seus filhos; muitas vezes vinte e quatro horas é pouco tempo e aí então é que entra uma das brincadeiras mais práticas para as mamães, o esconde-esconde.

Um, tês, cato...tô cundida... e enquanto isso, correndo pela casa, já guardamos algumas roupas e recolhemos outras; onde está o nenê...e adiantamos o jantar; cadê você filhinha...e arrumamos a sacola pro dia seguinte.

Mãe tem que ser esperta. Mãe inventa coisas que até o diabo duvida.

A Vi, como toda criança, se escondia nos lugares mais óbvios e eu via aquela carinha sorridente e inocente como se estivesse me enganando, os olhinhos brilhavam de satisfação; quando ela era bem pequenininha achava que se não podia me ver, estava bem escondida, muitas vezes cobria só o rostinho e eu via aquele bumbum gostoso, aquelas perninhas gorduchas e os pezinhos de pastel, porque que eram fofinhos, os dedinhos de inhoque, porque que eram pequenos e roliços.

Hoje não tenho mais profissão, não sou um meio para coisa alguma, vinte e quatro horas são horas demais pra passar mais um dia; acredito que minha filha esteja escondida em algum cantinho desse infinito; numa outra dimensão, noutro estágio, num outro universo qualquer e eu procuro por ela.

Se a morte é a metamorfose definitiva, minha filha é a forma mais perfeita de vida.


 


Escrito por maedavivica às 08h05
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09/06/2009


Escrito por maedavivica às 07h55
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Junho... sinto este mês na pele, nas noites frias, casacos de lã, gorros e luvinhas; você era uma boneca agasalhada.

Todas as festas juninas em que fomos juntas, quando todos os doces eram permitidos e o simples era divertido; o dinheirinho separado pras brincadeiras, caixinhas que guardavam surpresas, a pescaria, boliche de mesa; você escolhia um país, jogava as argolas, corria pela escadaria.

Como era gostoso, minha filha; a vida tinha cheiro de milho e quentão. O que mais pode doer tanto do que ainda sentir sua mãozinha segurando minha mão?

Esses sentidos não passam; constantemente sinto teu cheiro, seu tato, passo as mãos pelos seus cabelos, cheiro seu pescoço, seu colo, vejo o brilho alegre que tem seus olhos.

Não tenho certeza se estou no passado toda vez que vejo você; tudo tem um cheiro doce e salgado, sentimentos atordoados que não me deixam entender; será meu deus que é mentira? Já não consigo saber.

Fico às vezes tão confusa, é minha vida misturada à sua, é sua morte misturada à minha.

Às vezes queria poder me ausentar por um minuto que fosse; um segundo de paz absoluta; sem nenhum sentimento ou emoção alguma. 


 


Escrito por maedavivica às 07h33
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29/05/2009

O que mais eu compreendo hoje é minha preparação para o universo; é saber que eu reagi, com muito sofrimento, mas reagi; cumpro o destino que me foi imposto e quando me juntar ao todo estarei completa.

Se existe uma elevação da alma ela vem com a dor, com o desprendimento da matéria, de tudo que é supérfluo; se nessa hora alguns procuram a religião, outros procuram o entendimento pessoal.

Buscar a maneira correta de passar pelo calvário é acrescentar sofrimento a ele, porque a dor é pessoal, assim como a perda. Cada um de nós busca seu próprio caminho, porque cada um de nós sabe o que perdeu.

Querer que eu sofra assim ou assado é querer determinar a importância da minha filha na minha própria existência; dizer que deus quis assim é, no mínimo, muito simplista.

Infelizmente tenho vida; comecei a terceira e ultima fase da minha existência; terá de ser a da compreensão, da sabedoria; a fase do desprendimento. Consigo estar acima de muitos sentimentos, o da inveja, da cobiça, da ganância, da vaidade, do materialismo e tantos outros. Ainda não lido muito bem com a raiva e a crença.

Há três anos e cinco meses, mesmo sem entender ou aceitar, dei os primeiros passos em direção ao fim da estrada; talvez eu ainda tenha tempo pra deixar mais do que um vão de sofrimento ou uma história dolorida.

A maior importância depois da morte de um filho é fazer valer aquela vida. Que compreenda quem quiser compreender.


Escrito por maedavivica às 10h19
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25/05/2009


Escrito por maedavivica às 08h10
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Sinto tanta, tanta, tanta falta de você; só deus sabe quantas vezes tive vontade de gritar, mas o grito fica preso lá no fundo, surge como um gemido, um suspiro, um ai desconsolado.

Não falo com ninguém o que realmente gostaria de falar, acho que as pessoas não merecem conviver com esse sofrimento, mas na verdade, eu quero falar de você o tempo todo; quero chorar sua falta abraçada a alguém, mas quem? 

Já não sei mais como meu raciocínio funciona, como anda minha cabeça; hoje, lendo a noticia de jovens que morreram num rodeio de Jaguariúna, senti uma dor no peito, um medo, pensei: nossa, podia ter sido a Vi.

Como se já não tivesse acontecido.

Lembrei do medo que tinha quando ia com os amigos para esses rodeios, aquela multidão sempre me assustava ou quando você ia de Serra para Amparo naquela estrada tão perigosa.

Tantos medos tive nessa vida relacionados a sua perda; quando você viajava com o grupo de caratê pra outras cidades; quando simplesmente você saía.

Nunca te disse nada, pra que você não se assustasse, mas meu coração parava até a hora de você voltar; estive em casa o tempo todo te esperando e hoje sou eu que vou ter que te encontrar.

Medos resistem como se a morte não tivesse levado tudo; como se alguma coisa ainda pudesse te afetar; não estradas ou multidões, não acidentes ou doenças, mas alguma outra forma de sofrimento a que eu não tenha acesso; não estou aí pra te ajudar.

Por isso, minha filha, é que apesar de tudo, deixo meus braços abertos, meu colo disponível e meu coração inteiro; meus melhores pensamentos são pra você, meus maiores sentimentos são pra você, porque o que eu tenho de melhor é você.

Penso então nas mães que ficaram sem seus filhos e queria dizer a elas que essa é a maior luta que um ser humano pode enfrentar, sobreviver aos filhos; que seus dias nunca mais serão os mesmos, que suas noites serão de insônia, que seus corações jamais baterão no mesmo ritmo.

Queria dizer a elas que não vai passar, nós é que passamos a viver de outra forma, em outro mundo, incompreensível pra quem não perde um filho; um mundo de remédios e psicólogos; um mundo de dor e incompreensão; um mundo de sofrimento e espera e de uma saudade que não acaba nunca.


Escrito por maedavivica às 08h03
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17/05/2009

Cheguei filha, estou em casa, o único lugar onde me sinto confortada, você tornou-se um todo ao meu redor, o mundo lá fora não me interessa; se algumas vezes não consigo definir sua imagem, percebo o pleno, o que me completa.

Mudei de floricultura, procuro alguma coisa bela e diferente, mas não inventaram uma flor que nascesse da saudade de um filho, então escolho alguma coisa humanamente simples, como humanamente horrível é aquele lugar.

Sua tia esteve aqui, saí com ela, caí na calçada como um tomate maduro, machuquei o joelho, quebrei os óculos; uma menininha desconhecida colocou suas mãozinhas no meu rosto, me deu um beijo e disse, coitadinha, fiquei confusa e perturbada, lembrando de você.

Fomos até a casa de seus avós; fiquei aflita, angustiada; parece que só consigo respirar direito quando estou aqui com você; tudo isso num dia que eu gostaria que jamais tivesse acontecido; sei que não sou capaz de fazer mais nada por hoje, estou acabada.

Ninguém tem idéia de quanto tempo demora para eu voltar à minha rotina de redoma; a aquela espécie de paz que eu só consigo com você.

Só quero dormir, minha querida, tudo pra mim agora parece uma aventura desnecessária.


 


Escrito por maedavivica às 09h28
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15/05/2009

Mãe

Que mãe já não desenhou uma carinha risonha no sanduíche; quem não escreveu “te amo” na cobertura do bolo? Qual de nós já não desenhou corações num bilhetinho?

Que mãe já não distinguiu na multidão aquele sorriso; reconheceu a quilômetros de distancia aquele jeitinho; qual de nós já não esperou com ansiedade o barulho da chave na porta?

Qual de nós, babando pelo canto da boca, já não disse orgulhosa: É meu filho.

Somos assim; o olhar se incendeia só de nos lembrarmos daquela carinha. Mães riem de piadas sem graça; escutam pacientes longas histórias, milhões de palavras.

Filhos que morrem são como bebês que não crescem; podem ter ido embora com mais de cinqüenta anos, mas são sementinhas do nosso ventre e serão crianças pra sempre.

Mesmo que eles partam adultos, barbados; mesmo que, ainda menina, teimosa insista que é já mulher, que nada, serão sempre recém nascidos frágeis e delicados.

Os filhos que morrem são nossos pequerruchos alados; nossos anjos eternizados, bibelôs da nossa memória.

 


Escrito por maedavivica às 11h40
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Escrito por maedavivica às 10h21
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A perda foi mesmo irreparável, “inconsertável”.

Chega uma hora, do dia ou da noite, em que digo, chega, não suporto mais; tomo meu remédio e espero o sono chegar. Sei que não é um sono tranqüilo pela maneira como acordo, quebrada, a cama toda desarrumada, parece que foi uma luta; provavelmente tenha sido.

Acordo, de certa forma, aliviada desse que deveria ser o descanso; abro os olhos e digo, menos um dia.

Meu pequeno prazer está nas minhas esculturas e elas vêm mudando comigo. As primeiras peças que eu fiz eram mulheres mutiladas, entranhadas, presas e deformadas, hoje faço anjos e bailarinas.

O que mudou em mim?  Não sei. Sei que cada peça, cada anjo, vem da ausência; do fato de só ter podido me dedicar a esse prazer, em tempo e dinheiro, com a morte de minha filha. Que preço, meu deus, eu pago por cada pedacinho de argila.

Minha cabeça está confusa, acho que, quando muitos sentimentos se acalmaram, outros se exaltaram; hoje sou só tristeza e saudade, mas sou muito amor também e me dedico muito mais a ele do que a dor; talvez por isso eu acabe minha vida modelando bailarinas, anjos e pequenas fadas.

 


Escrito por maedavivica às 10h17
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