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| 16/07/2010 |
Você, menina passarinho, Eu, ave envelhecida com vontade de voar... Quando estou nos braços teus Sinto o mundo bocejar Quando estás nos braços meus Sinto a vida descansar. No calor do teu carinho Sou menino-passarinho Com vontade de voar Sou menino-passarinho Com vontade de voar Luis Vieira >
Escrito por maedavivica às 10h59
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| 13/07/2010 |
Perder um filho é descompreender o compreensível; desperceber o perceptível; é ter que desaceitar o aceitável porque é o inverso da vida. Ver morrer um filho é desprogramar o programável; desimaginar o imaginável é ter que desonhar o sonhável porque é a disfunção da vida. Enterrar o próprio filho é desvomitar o vomitável; desacreditar o acreditável é ter que desconsolar o consolável porque é a morte da vida. A morte da minha filhinha é como engasgar com o ingasgável; sofrer com insofrível; é como ter que nascer ao contrário e inventar palavras por não ter palavras pra descrever o HORRÍVEL.
Escrito por maedavivica às 15h13
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| 06/05/2010 |
Quando me deparei com aqueles olhinhos fechados vi todo meu mundo ser esmagado, sabia que não viveria porque perdi a luz naquela hora. Estranho é que eu não estava lá, eu também tinha ido embora e aquela embalagem vazia não sabia o que pensar, não entendia. Estranho também foi a sensação de aniquilação total, como se eu tivesse me desintegrado; morremos. Foi. Fui. Lembro de um distanciamento, um aprofundamento; lembro de sentir frio enquanto um fio eletrocutava meu corpo. Não era uma sensação de morte, a sensação era de fim. Pra nunca mais. Não era provisório, momentâneo; não era superável ou consertável; não era por um tempo, era para sempre. E o que sente uma mãe nessa hora? Nada. Sente o nada por inteiro. Foi. Fui. A sensação de profundidade nunca me abandonou; não me elevei a outro plano, me enterrei de cara na terra. São mortes diferentes e diferentes enterros, mas são mortes e são enterros. Ainda hoje é inaceitável termos morrido; é uma tortura constante por ela ter ido, por eu ter ficado.
Escrito por maedavivica às 09h04
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| 12/04/2010 |

Escrito por maedavivica às 09h46
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Naquela noite, pouco tempo antes de acontecer, meu sobrinho esteve lá em casa; tempos depois ele me disse que eu estava tranqüila, suave, com a aparência incrivelmente calma; foram os últimos minutos de paz que eu tive. Era aquela melhora que acontece sempre um pouco antes da morte. A ausência de minha filha está me contorcendo por dentro, esmaga todos os meus órgãos; parece que estou numa centrífuga que tira o suco de minha vida, vai me espremendo, espremendo e eu sou cada vez mais bagaço. Tenho um lado racional que me mantém numa sanidade até doentia, mas tenho também um lado irracional, magoado, que me coloca no freezer; que faz com que eu queira que todo mundo se dane, que tudo se acabe; um lado frio, congelado, mas absolutamente necessário para que eu consiga caminhar sozinha. O desamor é minha preservação, mas é também minha solidão e a solidão mata enquanto modifica. Não consegui encontrar aquela serenidade que deveria vir naturalmente pra quem já perdeu tudo; estou entre o existir e o não existir, o sentir e o não sentir e talvez nunca saia dessa condição sub-humana.
Escrito por maedavivica às 09h40
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| 04/04/2010 |
Estou me sentindo tão debilitada nessa necessidade que eu tenho de um abraço, de um contato, de um carinho. Estou me sentindo invisível, abandonada, física e emocionalmente, porque o que eu sinto ninguém mais sente; tenho muitas mágoas e mágoa chama mágoa. Não sei como me recuperar e alcançar as pessoas que seguiram em frente; o que temos em comum é a dor da perda e eles a sentem de maneira diferente; o que tem hoje a filha, a irmã, a tia, a amiga, que alguém queira compartilhar? Sobre o que eles conversam, o que planejam, sonham, em que eles investem suas vidas, como é o dia a dia de cada um? Eu perdi o hábito de conversar sobre coisas simples e corriqueiras. Me sinto idiotizada, marginalizada, distante da vida; não consegui e nunca mais vou conseguir ter os mesmos interesses, ver as coisas da mesma maneira. É desse abismo intransponível que eu falei um dia, eu não consigo voltar à vida e ninguém quer conviver com a morte.
Escrito por maedavivica às 08h24
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| 30/03/2010 |

Escrito por maedavivica às 10h08
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Minha filha vem vindo pra casa, está chegando a hora de recebê-la; se por um lado sinto a paz de tê-la aqui comigo, por outro, sinto o desespero de recebê-la dessa maneira. Do pó ao pó, minha filha de cinzas. Estou com medo. Como é injusto uma vida inteira ter durado tão pouco; se teve uma infância feliz, uma adolescência feliz, parou por aí; todo o resto dessa experiência terrena lhe foi negada e não há crença ou religião que me faça aceitar. Penso e muito no dia em que vou recebê-la; o que vou sentir ao pegar aquela caixinha, o pouco que sobrou de uma vida tão importante; ela faz tanta falta que mesmo recordações tão boas não são tão boas de recordar. Lembrar é bom e dói na mesma proporção. A perda é imutável, faça o que fizer, aconteça o que acontecer, a grande realidade de nossa vida não muda nunca; todas as outras coisas são pequenas, são detalhes com os quais qualquer pessoa pode lidar, são coisas pelas quais passamos naturalmente pela vida; a morte não. Penso que nada sobreviverá a nós; nenhum herdeiro, nenhuma continuação; o que constituiria nossa família, morrerá comigo. Gostaria de um dia ter a grandeza e o desprendimento de poder libertá-la dessa terra definitivamente, de solta-la no ar, lugar a que pertence esse anjo, mas, mãe egoísta e possessiva, quero que ela esteja em meu colo, num último primeiro abraço.
Escrito por maedavivica às 10h03
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| 16/03/2010 |
Hoje é dia dezesseis e eu penso em meu caminho; ele é necessária e involuntariamente pra cima, numa evolução que eu não chamo de espiritual nem moral, então me pergunto: porque querer ser melhor? Às vezes penso que estou viva, não que eu sonhe ou planeje um futuro, apenas tenho essa sensação; são segundos até que a realidade bata em minha cara, então...melhorar em que? Sinto tanta falta da minha pequena que o coração aperta, o peito dói e não tem absolutamente nada que eu possa fazer; então...melhorar pra quem? A morte de minha filha não me deixou nada pra ser melhorado, apenas acrescentou tristeza e saudade a um coração nascido nostálgico, triste e poético que viu ser destruído cada sonho, cada projeto ao longo da vida. Penso que corpo e alma são matérias diferentes, que cada uma cumpre sua parte vivendo no mesmo lugar; habitamos o mesmo espaço sendo tão diferentes, do que o corpo precisa a alma está liberta e vice versa; então... melhorar é o que? Estou tão abalada hoje quanto estava um ano atrás, ou dois, ou três ou quatro, essa dor nunca passa; não consigo encarar como sendo uma missão, foi uma fatalidade ou uma escolha errada, então... Melhorar não é a palavra, evoluir não é a palavra, nem aceitação, continua sendo impotência e devastação; tenho momentos melhores, mas ainda tenho pesadelos, medos e depressão. Parece que estou querendo pagar uma dívida, é como se dissesse: se eu ficar boazinha ganharei o céu onde minha filha habita, mas estou cansada dessa fachada de querer ser santa; não sou, nunca fui e jamais serei canonizada. Quero chutar paredes, quebrar móveis, quero bater os pés e gritar, gritar, gritar; quero ser extremamente malcriada, ofender pessoas sem motivo, sem razão, bater na minha própria cara, não ter um pingo de educação; quero, pelo amor de deus, não me importar. Não consigo... não de todo, continuo engolindo meus próprios sapos; acredito que o que me impede de agir assim é a dor que sinto, não que não haja revolta em meu coração, apenas não reajo e essa falsa “evolução” é simplesmente apatia, desencanto e cansaço.
Escrito por maedavivica às 10h33
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| 19/02/2010 |
Fixo os olhos em um ponto, divago, sonho, pronto, não aconteceu nada... Corro prá lá e pra cá com minha filhinha, sento, cansada, numa cadeira, enquanto ela brinca com o baldinho na areia. Neste mesmo olhar, neste mesmo ponto a visão se mistura, ela está linda... vestida, maquiada, no dia da formatura. Um ponto, um olhar fixo e ela está aqui comigo, dormindo... De repente, ela nada batendo os pezinhos, vem querida, está na hora de ir pra casa, um aceno, um sorriso e ela vem correndo. Neste ponto, já não enxergo nada, além dessa cena tão querida, somos nós duas abraçadas, seguindo nossas vidas.
Escrito por maedavivica às 08h41
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| 17/02/2010 |
Olho desolada o espelho de minha vida nesta quarta feira realmente de cinzas. Analiso as distâncias que ainda não alcancei, o caminho já percorrido, o quanto a tristeza me modificou e como foi se modificando, não estou mais adormecida. Estou sozinha e com muito medo; tenho enormes recaídas; sensações medonhas da não morte, de imaginar que alguma coisa de nós fica perdida. O corpo deveria ser como a alma e simplesmente desaparecer, o que resta de nós não é, em absoluto, uma dádiva deixada, é a constatação de uma morte estúpida e diária. Restos, restos mortais, é assim que se fala, mas é tão pouco o que fica, tão humilhante, tão degradante, tão horroroso... a morte ainda me deixa indignada; no que se transformou aquele rostinho que eu beijava, beijava? A vida mais dolorida é ver morrer um filho.
Escrito por maedavivica às 08h29
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| 08/02/2010 |

Escrito por maedavivica às 09h32
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Não posso dizer que meu rosto se ilumine quando falo de minha filha, tenho ainda névoa nos olhos, a visão turva; minha fisionomia desabou. Antigamente eu podia sentir a luz se acendendo quando olhava pra ela ou falava sobre ela, apagou, talvez volte um dia quando eu estiver vivendo só pra recordar. Sei que fiz tudo o que pude da maneira que consegui, mas fiz muita coisa errada pra poder ser feliz; teimei e lutei pra direcionar meu destino, mas ele sempre foi muito mais forte do que eu. A rasteira que a vida nos deu me deixou plantada, não consigo me desprender desse chão, mesmo porque, não importa aonde eu vá acordar, estarei sempre no mesmo lugar. A vida hoje é um arrastar de horas de quem não vê a hora de tudo acabar. Estou mole por dentro, tremendo por fora, numa situação tão grave, tão devastadora que me faz sentir descarnada; existo pouco, vivo menos ainda, a saudade ocupa todo o espaço que um dia a felicidade ocupou.
Escrito por maedavivica às 09h30
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| 07/02/2010 |
Vi num documentário uma senhora contando um pouco de sua vida, entre uma frase e outra ela dizia que nada, nunca, tinha dado certo pra ela. A aparência dela era de quem vivia no passado, falava como quem não tem com quem compartilhar; cantou uma musica de sua própria autoria, que talvez ninguém mais tenha escutado. Enrolou os cabelos, passou batom, blush e uma sombra azulada; enfeitou-se para ser admirada e não é isso que queremos, sermos notadas? A solidão é tão triste quanto a saudade. No meio de tanta gente, ela precisou de uma reportagem pra dividir experiências; no fim, ela entrou e fechou a porta como se voltasse para seu mundo; somos nosso próprio universo em nossas cabines de concreto. Mesmo sem conhecer toda sua história eu percebi o quanto somos parecidas, me vi como se narrasse minhas lembranças, a única coisa que me restava; a vida me ensinou perdas e foi perdas que eu aprendi.
Escrito por maedavivica às 08h50
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| 29/01/2010 |
A todas as mães que perderam seu filho, talvez entendam como eu me sinto. Até hoje tenho a sensação de querer voltar pra casa, mas já não sei onde ela está; tudo o que era meu, tudo o que eu amava, sumiu, desapareceu no ar; vivo num vácuo profundo, procurando o meu lugar. É incompreensível, difícil de explicar, o não ser, o não pertencer, o não se localizar; busco raízes, referências, mas nada está onde deveria estar. Uma presença, a muda companhia, são simples coincidências, pelo fato de eu me lembrar. Não importa aonde eu vá, não importa o quanto eu saia, retornar é não encontrar, é não ter o que procurar.
Escrito por maedavivica às 13h56
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