 |
|
|
| 16/03/2007 |

Escrito por maedavivica às 20h16
[]
[envie esta mensagem]
|
|
A festa que você fez pra mim
Você chegou em casa por volta das onze horas, ficamos tagarelando um tempão; acho que já era meu aniversário, mas não me lembrei e você também não disse nada.
Dormi pesado, gostoso, como dormem todas as mães quando os filhos estão em casa. Quando acordei o quarto estava cheio de balões e cartazes; você chegou com o café, um presente, aquele sorriso maravilhoso e muitos beijos.
Você deitou na minha cama e ficamos abraçadas, olhando o quarto todo enfeitado. Engraçado... dizem que depois a gente se lembra do quanto era feliz, nós não, nós já sabíamos.
Escrito por maedavivica às 20h16
[]
[envie esta mensagem]
|
| 15/03/2007 |
Ando irritada com tudo, esse calor excessivo não está ajudando. Não quero me levantar, não tenho vontade de falar, queria poder não respirar.
Ah, como é triste viver sem querer.
A gente se engana o tempo todo; a princípio diz que vai viver pela memória do filho, depois pela família, como última esperança, pra poder ter um reencontro. Por querer acreditar que a vida prossegue de onde paramos, que nossos filhos estão nos esperando do jeito que eram.
Essa bobagem universal. Nós inventamos a imortalidade por não aceitar o fato de sermos simplesmente mortais.
Aceitar que o corpo se decompõe com a alma que tem é muito mais difícil do que acreditar que ele sobrevive de outra forma. Estou inconsolável.
Todo dia é uma mentira inventada. Tenho visto mães que sobrevivem por causa da carreira, do marido, da mãe, de outros filhos, não importa, o fato é que sobrevivemos e há muita culpa nesse fato.
Queria que o vento me levasse. Queria abrir os braços e poder voar, só isso.
Escrito por maedavivica às 09h26
[]
[envie esta mensagem]
|
| 14/03/2007 |
Há dois meses não vou ao cemitério, mas estou arrependida, cada vez que vou até lá sinto uma dor muito forte, mas o mínimo que você merece são flores. Estou te devendo esse carinho.
Pode parecer bobagem, alí, não resta mais nada do que foi você, mas deixar de ir faz com que eu sinta que estou te abandonando; não quero comemorar com flores sua morte, quero florir suas lembranças.
É difícil de entender, eu não sei explicar. Cada passo desse luto tem sido muito dolorido, é um aprendizado duro e machucado de como passar por esta vida.
Enquanto vivemos somos assombrados por muitos medos, hoje meu único medo é de viver muito tempo, de envelhecer lentamente, dependendo dos outros.
Quando vou ao cemitério meu desejo é que não tivesse acontecido, que tivesse sido eu ou que pelo menos fossemos nós duas, tenho vontade de deitar ao seu lado e simplesmente ir embora.
Mas, não é tão fácil assim, tive que sofrer sua perda e tenho que amargar meus dias. Meu relógio biológico parece que não entende meu desejo, mas ele vai parar um dia, é só questão de esperar.
Escrito por maedavivica às 19h55
[]
[envie esta mensagem]
|
| 12/03/2007 |
Estranho... todos os dias eu abro o armário do banheiro, ele sempre tem cheiro de armário, mas hoje, hoje quando eu abri, senti o perfume forte de talco de criança, como eu gostava desse cheirinho em você, respirei com força, fundo, e ele continuou lá. Fui dormir me sentindo bem e senti você me beijando, por alguns segundos eu estava em outro lugar.
Escrito por maedavivica às 15h08
[]
[envie esta mensagem]
|
| 11/03/2007 |
Meus pensamentos estão confusos, mas o que eu quero dizer é que de tudo que eu já passei, de não ter sido correspondida no primeiro amor da minha vida, de não ter encontrado uma profissão em que eu me adequasse, de ter perdido pra morte meu segundo amor, de ter sofrido dores que me faziam esquecer até do próprio nome, de ter síndrome do pânico quando nem se sabia o que isso significava; tudo, tudo aumentado mil vezes, não representaria nada se eu não tivesse perdido minha filha.
Sofri a dor de meus irmãos que sempre tiveram a vida muito difícil, que lutaram pra driblar tantos problemas, que não foram amados o quanto mereciam; sofri o dor de meus pais vendo os filhos sofrerem, mas tirei da cartola muita mágica pra continuar vivendo.
Nada disso teria grande importância se, no fim da vida, não tivesse que conhecer essa dor; não tenho mais mágicas pra fazer, na verdade perdi até a cartola.
Por dezoito anos eu lutei pra sobreviver, mas era uma luta justa, repleta de recompensas. Esses dezoito anos foram o meu recreio, minha festa, meu passeio favorito; durante dezoito anos eu entendi porque as pessoas levantam cedo, trabalham o dia inteiro e, por mais que estejam cansadas, tomam um banho e são felizes.
Hoje a vida é como a primeira aula na segunda feira, a professora de geografia, a chuva no fim de semana.
A vida é o despertador na melhor hora do sono, o patrão autoritário; é o carro quebrado na estrada, a falta de luz no melhor do filme, o salário mínimo no fim do mês.
A vida hoje é o Ronaldinho errando o último gol, o Senna perdendo a curva, a Elis exagerando na dose. É a visão distorcida de todas as coisas. Ver com olhos de tristeza é não ver, sentir com a dor é não sentir, viver só por viver é não viver.
Escrito por maedavivica às 09h45
[]
[envie esta mensagem]
|
[ ver mensagens anteriores ]
|
|
|