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| 06/04/2007 |
Sobrevivi ao maior de todos os castigos; acho que vou viver pra sempre, quem me dera uma doença grave ou uma morte súbita; acho que eu mereço enfim, descansar em paz.
Que outras experiências terei ainda, o que mais pode me afetar de maneira tão dura? Fico aqui sentada, sem nada pra fazer, esperando o que ? Nada vai mudar, nada vai acontecer.
É tão pouco sobreviver do nada, é tão sem razão. Não tenho condições financeiras pra adotar uma criança, não tenho condições emocionais pra cuidar de outras, estou velha pra recomeçar a vida. Não tenho nem mesmo uma profissão.
É duro demais, é difícil demais. Sou covarde e estou com medo. Quando as pessoas falam que eu deveria me recuperar e recomeçar a vida, me pergunto: por onde ? de que maneira e principalmente, por que ?
Só quem me conhece, quem conhece minha história, sabe do que estou falando, sabe da importância da minha filha em minha vida; sei que todos os filhos são importantes, sei que não sou a única a sofrer essa dor, mas tem quem dê conta do recado, tem quem não consegue.
Escrito por maedavivica às 10h09
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| 03/04/2007 |
Te perdemos
Eu e teu pai fomos passear com você no shopping; estava cheio, tinha fila pra comer, pra brincar, pra ir ao banheiro, estávamos quase desistindo e voltando pra casa.
Um segundo e você sumiu, que desespero... os olhos não conseguem enxergar, a gente fica tonta, tem vontade de gritar sem saber ao certo o que fazer; você se cansou e sentou no degrau de uma loja; foram os piores minutos de nossas vidas.
Isso me fez lembrar “As mães da Sé”, que me fez lembrar da velha dúvida da mediunidade. A vida inteira me cobraram esta espiritualidade que eu acho que nunca tive, sempre me dizeram: você é medium, tem que desenvolver.
“Tem que” já me bloqueava um pouco, depois eu pensava: desenvolver o que, se era um dom e ele já existia ? Eu era tão nova, queria viver a minha vida e não ficar falando com os mortos.
Nunca entendi essa comunicação unilateral, se as pessoas estão do outro lado, deixe que elas vivam essa nova experiência. A espiritualidade é a falta de fé.
Nunca aceitei essa busca pelo futuro, tem pessoas que querem tanto saber do futuro que não vivem o presente, pra que se o futuro nos alcança e não podemos modificá-lo.
Sempre achei que mediuns e espíritos deveriam trabalhar juntos para um bem maior. Se ao menos eu fosse capaz de trabalhar pra essas mãezinhas que viram seus filhos desaparecerem sem deixar nenhum rastro; esses filhos que não estavam sentados no degrau de uma loja, que jamais foram enterrados, se eu pudesse dar paz a esses corações sofridos, aí sim, eu aceitaria essa comunicação.
Não busco saber se minha filha vive. Tem horas que eu gostaria de acreditar, tem horas que eu acho tão absurda a idéia, não sei... sei que se eu conseguisse encontar uma só criança perdida, então eu me diria medium e dedicaria vinte e quatro horas do meu dia, pelo resto dos meus dias.
Escrito por maedavivica às 08h22
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| 01/04/2007 |
Não me consolam outras dores, tenho as minhas.
Meu avô morreu, na época eu estava com seis anos e tudo o que eu entendia é que era ruim; a última vez que eu o vi no hospital, não o reconheci. Mais tarde, quando vi pela primeira vez aquele esqueleto que ficava trancado no laboratório da escola, me lembrei dele, deitado na cama; era assustador. Anos depois percebi que com ele morreu meu primeiro sonho: ser escultora. Eu adorava o cheiro da argila, da pitanga no quintal, do gesso sendo preparado, o avental respingado, esculturas enormes.
Morreu o namoradinho da minha irmã e, por qualquer razão, á noite ele veio falar comigo, não entendia o que estava acontecendo, a família chorava, parecia que não o estavam vendo. Acordei com o telefone tocando, alguém estava avisando que ele havia morrido. Um tiro no rosto o levou pra sempre.
Morreu minha tia. Uma pessoa de gênio forte, lutadora. Não foi feliz no casamento, tinha problemas em se relacionar com as filhas e com a mãe que morava com ela. Os natais eram sempre em sua casa, lembro dos enfeites, dos presentes, da ceia, nem sempre queriamos estar lá, mas era assim que era. Minha tia teve uma grande cruz pra carregar, seus últimos meses passou imensamente inchada de morfina ou extremamente cadavérica.
Morreram meus avós. De uma eu me lembro da doçura, passou por tantas dores, criou as netas, viu a filha se definhar com cancer, mas tinha uma conformidade doce nos olhos. A outra, gostava de festas, jogos e desfiles de carnaval, mas meu avô gostava de corrida de cavalos, passou de extremanente rica, mordomos e empregados, a miserávelmente pobre, vivendo de favor; nem isso tirou-lhe a alegria de viver.
Morreram meus tios. Um era o símbolo da alegria, tudo com ele era diversão, adorava música, era apaixonado pela esposa e pelos filhos; um ataque fulminante o levou, na entrada do hospital. O outro era briguento, mas divertido; morou com a gente durante um tempo, casou tarde, trabalhou muito e morreu de infecção hospitalar.
Morreu meu companheiro. Pintor e escultor, sofrido. Perdeu o pai muito cedo; criado como um príncipe pela mãe, acabou seus dias sem falar com ela. Tinha o gênio forte de espanhol e bebia como tal. Conheceu o amor verdadeiro, não comigo, mas com a filha, um novo mundo se abria pra ele e ele tentou, tentou muito melhorar. Morreu longe de nós, sózinho num apartamento em Fortaleza pra onde tínhamos ido pra tentar ser feliz.
Muitos anos se passaram depois dessa última morte e eu achei que ela tinha se esquecido de nós, que tivesse dado um tempo e aí ela vem e leva minha filha, então eu penso: se a vida se resume em vislumbrar algumas paisagens, em possuir alguns bens, em ter algum conhecimento; se nascemos enraizados num lugar quando temos um planeta inteiro, se estamos dormindo quando o sol nasce e trabalhando quando ele se põe; se por estudar e trabalhar não temos tempo pros amigos, não conhecemos nossos vizinhos, pouco nos reunimos com a família; se conhecemos só alguns momentos de felicidade; se a vida afinal se resume em lutar e morrer, então pra que ? Quantos de nós são realmente felizes, quem já passou por aqui sem ter sofrido. Posso até tentar entender esse ciclo, mas não aceito a morte da minha filhinha.
Escrito por maedavivica às 09h45
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Os momentos de calma nunca são de calma, são de introspecção; fico suspensa no vazio da saudade e dos pensamentos.
São os únicos momentos sem dor do meu dia.
Descobri um silêncio interno, ôco; como se eu me embutisse. Viro pra dentro e fico bem quietinha; nem ar, nem barulho, nem emoções me incomodam.
Repetir esse momento me refaz um pouco, me dá um pouco do alívio de que preciso. A qualquer instante esse torpor pode ser quebrado.
Um respirar mais profundamente, um virar de cabeça, um instante de consciência, lembranças; qualquer coisa me faz voltar a realidade e aí a dor volta.
Quero fugir dela pra poder descansar; o sono vem em algumas horas recortadas por pesadelos e sensações ruins.
Tenho pavor da cama.
Quero que amanheça logo, depois não sei o que fazer com meu dia. Não estou sabendo tirar lições dessa dor; sinto que a cada dia posso menos, quero menos e estou mais fraca.
Escrito por maedavivica às 08h29
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