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| 28/09/2007 |
Toc, toc.... quem é? sou eu compulsiva!
É difícil se analisar e julgar, porque é preciso uma nudez absoluta.
Quando eu me casei, mesmo sem muito dinheiro, consegui manter minha casa bem decorada com boas idéias, muito bem cuidada e limpa. Meu marido gostava disso e colaborava para mantê-la assim; então eu me controlava.
Depois do divorcio, morei com uma amiga muito alegre que gostava da casa cheia de amigos e muitas festas, mas era uma pessoa muito ordeira, então eu me controlava.
Foi só quando eu tive meu próprio espaço que pude dar vazão ao meu comportamento obsessivo. É verdade, sou meio Monk. Pra quem conhece o seriado, sabe que ele tem TOC, transtorno obsessivo compulsivo.
Eu sempre soube que era assim, só não tinha um nome. Passei anos tendo o tapete simetricamente colocado, com as franjas sempre penteadas. O quadro tinha que estar exatamente no meio do espaço que ocupava o sofá. E assim por diante. Tudo era compulsivamente arrumado e limpo.
Não me incomodava com visitas, eu me controlava e, depois que elas saiam, eu ia limpar a casa e recolocar tudo no lugar. Uma doença que não chegava a me perturbar, desde que eu vivesse sozinha.
Depois que minha filha nasceu, mesmo que tudo estivesse fora do lugar, parecia estar perfeito. Continuei mantendo a casa limpa e arrumada, mas já não penteava as franjas do tapete, ao contrário, comprei tapetes sem franjas.
Entendi que ela merecia ter seu espaço, um lar tranquilo pra viver, um lugar onde gostasse de ficar; mesmo porque ela compensava qualquer coisa e qualquer transtorno.
Hoje, nada mais importa, mas alguma coisa ainda está viva em mim que me faz, de vez em quando, medir o espaço entre um porta retrato e outro.
Escrito por maedavivica às 13h38
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| 27/09/2007 |
Patch work
A vida é assim, essa colcha de retalhos aonde vamos costurando nossas lembranças. Cada pedacinho é uma experiência adquirida nas alegrias ou tristezas e todos eles contam um pouco da nossa história.
A minha começou a ser confeccionada no dia em que você nasceu. A ansiedade por este dia já me fazia sonhar com uma colcha enorme e colorida.
Bordei a primeira imagem do seu rostinho gorducho e corado, os olhinhos da cor do mel, mãozinhas, pezinhos, barriguinha, tudo perfeitinho; ficou um lindo bordado.
Deste dia em diante, todos os retalhos foram minuciosamente planejados, cada pedacinho foi confeccionado com capricho e riqueza de detalhes. Cada centímetro continha uma quantidade enorme de amor.
Com mãos humanas e imperfeitas, fiz o melhor que pude. Se por muitas vezes o desenho estava incorreto o desejo de acertar superava o erro. Nenhuma imagem ficou por terminar.
Hoje sozinha, já não crio novos desenhos, passo e repasso por velhos caminhos. Vivo dos retalhos tão bem trabalhados que confeccionamos juntas.
Não chegou a ser uma colcha enorme, mas foi bastante colorida. Foi repleta, completa em cada um dos detalhes; não perdemos nem um dia.
É essa colcha alegre que me faz seguir e é com ela que quero estar quando morrer. Vou carregá-la comigo pra onde eu for e, se lá você estiver, vamos terminá-la juntas.
Escrito por maedavivica às 08h53
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| 24/09/2007 |
A Vi ia de ônibus pra faculdade, o combinado era que, na volta, quando ela entrasse no ônibus, me telefonasse para que eu fosse encontrá-la. Alguns dias antes ela vinha me dizendo: mãe, você trabalha o dia todo, a esta hora já está cansada e eu já estou bem grandinha, não precisa vir me buscar.
Eram os últimos dias de aula e eu disse a ela: não vamos falar sobre isso, no ano que vem a gente resolve. Ela ainda quis argumentar, mas eu disse: Vi, se te acontece alguma coisa, minha filha, eu morro.
Aconteceu de forma diferente; uma doença da qual nem imaginávamos, mas aconteceu e eu, covardemente estou viva. Se não tive coragem de por fim a própria vida, se não morri de amor, então o que...
Alardeei o tempo todo que sem ela eu não viveria, que só a ela deus não levaria, então o que... o que me mantém viva; parece que eu traí a minha filha. Eu a abandonei pra seguir sozinha na escuridão do desconhecido.
Essa sensação de tê-la abandonado, essa frustração de não ter conseguido impedir que acontecesse, me persegue dia e noite. Penso que em seus últimos momentos eu, por medo da verdade, não me abracei a ela. Achei que assim, fingindo que não era nada grave, nada aconteceria.
Deixei que ela ficasse sozinha nos últimos minutos de vida; esse é meu maior pecado e meu maior castigo.
Escrito por maedavivica às 18h49
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