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| 19/10/2007 |
Tomar formas
Quantas vezes chamo por você ... não acho justo ficar cobrando soluções que você certamente não tem, remédios que não possui, são só placebos desta vida.
Em algum lugar, de alguma forma, fomos predestinadas e ouvimos a sentença. Quando alguém bateu o martelo, estávamos condenadas; o que fazer senão cumprir a pena; de que adianta teresas nas janelas, se fugir não é a solução, mas assim como prisões não redimem, infernos não curam.
Já disse, não me tornei melhor; me revolta quanto alguém diz pra fazer desse limão, uma limonada, quem pode falar sobre isso?
Sabe o que eu quero, quero de todo coração? Que não exista outra vida, não que eu não queira te encontrar, mas não quero mais te ver sofrer. Se alguém, de alguma forma, consegue transformar essa vida num inferno tão grande, porque acreditar que esse mesmo alguém tenha criado um paraíso?
Eu sei o que você pensa a respeito, mas não me julgue, você tinha uma espécie de fé inocente de que tudo ia dar certo; o teu deus era bonito e quando o meu se tornou, levou você.
Tá muito difícil filha e eu estou fazendo o possível. Dizem os psicólogos, que essa dor não passa, mas toma forma. Forma de que? Que diferença faz pra quem perdeu um filho? Um ano, dez, vinte anos...
Que forma pode ter essa dor se o relógio do nosso coração tem uma cronologia diferente, se o tempo em relação a lembranças não passa e se a saudade não se mede em horas?
Que forma, minha filha, pode ter a dor da alma?
Escrito por maedavivica às 17h28
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Toda vez que eu estou ficando intransigente ou magoada com alguém ou alguma coisa, lembro de você me dizendo: deixa pra lá mãe, não fica assim... então eu tolero, perdôo porque ouço sua voz.
Cada vez que eu penso em desistir, acabar de uma vez com toda essa dor, eu vejo seu sorriso, lembro que por você valeu a pena, então, esqueço essa idéia, vivo porque tenho suas lembranças.
Quando está muito difícil de passar pelo dia ou a noite fica interminável, eu me lembro do quanto você era dócil e paciente, então eu agüento, porque que sei que é só questão de tempo.
Mas toda vez que eu vejo que poderia ter sido diferente, mesmo com toda sua sabedoria e doçura, não consigo me espelhar em você, então eu choro, porque sei que não tem nada mais que eu possa fazer.
Escrito por maedavivica às 15h09
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| 17/10/2007 |
É tanta tristeza no meu coração que eu não reajo; fico pensando que se gritarem: fogo! eu vou permanecer deitada.
Me deu um cansaço tão grande...
A saudade que eu sinto de você é tão forte que ocupa o espaço de todos os outros sentimentos. A dor me faz pensar que esse coração deu sua ultima batida.
Confesso que é assustador estar viva.
Sem você, minha filha, não há mais mistérios nem surpresas nesta vida, porque pouco importa. O prazer de pensar no futuro, sonhar alegrias; a espera de um amanhã promissor; seus estudos, sua carreira, seus amigos, nós duas; nada mais interessa. Sem você, minha amiga, o que me resta é amargar todos os dias.
O tempo parou, eu tento acompanhar o ritmo, mas não dá; outras vidas seguiram e eu fique pra trás, nós ficamos filhinha, paradas no tempo. Um ano e dez meses depois eu nem consegui chorar, a revolta era tanta que me secou por dentro.
Acordei muda, completamente interiorizada, muda de gestos, de expressões, muda de sentimentos, muda de lágrimas, só a raiva me consumia. Tinha uma vontade secreta de arrancar todas as flores do vaso, de amassar tudo, de jogar tudo pelos ares; se ao menos eu gritasse...
Tive vontade de mandar tudo pro inferno, xingar todos os deuses, vomitar minha raiva, mas seu rostinho sereno e alegre não me deixava. Vão fazer dois anos, minha filha, dois anos pra quem não ficava dois dias sem você; se ao menos eu morresse...
Escrito por maedavivica às 10h46
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| 14/10/2007 |
Minha mãe não tem idéia de quantas vezes por dia chamo por ela; cada dor mais forte eu grito, mãe... porque temos a impressão que o amor de mãe pode tudo.
Sinto falta dela como sinto falta do meu pai, dos meus irmãos, da minha vida. Sinto falta de festas, reuniões, filmes, bons livros, amizades; sinto falta de ser feliz e mais do que tudo, sinto falta da minha filhinha.
Eu gostava muito de musica, cadê meu Chico Buarque:
Só vim te convencer Que eu vim pra não morrer De tanto te esperar Eu quero te contar Das chuvas que apanhei Das noites que varei No escuro a te buscar Eu quero te mostrar As marcas que ganhei Nas lutas contra o rei Nas discussões com Deus E agora que cheguei Eu quero a recompensa Eu quero a prenda imensa Dos carinhos teus
Escrito por maedavivica às 08h49
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