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| 23/11/2007 |
Ando agitada, inquieta; estou como dizia a Vi: desorientada. Fico feliz com boas notícias na minha família, mas felicidade é hoje uma sensação estranha.
Talvez seja a proximidade do natal, nessa época do ano as mães enlutadas enlouquecem; ninguém sabe se pode ou consegue ser feliz porque a sensação de culpa, lá no fundo, nunca nos abandona; nós temos consciência da impotência, mas fica aquela pergunta: será que eu poderia ter feito alguma coisa?
Não mães... não poderíamos ter feito nada!
Assim como o dia das mães, finados e aniversário dos filhos, as festas de fim de ano nos deixam abandonadas, essa é a palavra; as propagandas na televisão, os enfeites nas ruas, o comércio agitado, parecem não fazer parte de nosso mundo. Papai Noel hoje é um velho sem graça que nos faz lembrar da ausência de nossos filhos.
Quem tem outros filhos, enfeita a casa, compra presentes, prepara a festa, mas essa festa nunca estará completa. Quem, como eu, teve uma única filha, quem como eu perdeu esta única filha uma semana antes do natal, quer desaparecer da face da terra.
Este ano, uma semana antes do natal, estará fazendo dois anos que minha filhinha morreu e em mim ficou aquela sensação do natal perdido, dos enfeites pela casa, dos presentes embrulhados, da ceia congelada.
Parece que foi há dois dias, há dois segundos; parece que se eu fechar os olhos, nada aconteceu; volto aquele segundo onde juntas, enfeitávamos nossa casa. Tenho vivido nesse exato segundo, entre o antes e o depois; não consigo definir nem vivenciar nada além disso.
Espera aí.... pára tudo... o que foi que aconteceu?
Escrito por maedavivica às 09h15
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| 20/11/2007 |
Recados
Toda vez que falam de você, espiritualmente, dizem que você está triste porque me vê triste e chorando; não dá pra ser diferente, sinto muito minha filha, mas como eu já disse: vire o rostinho pro outro lado e finja que não vê, porque eu vou chorar, chorar muito ainda.
Outro recado que eu sempre recebo é que tenho ainda uma missão a cumprir; é intolerável. Como assim? O que mais podem querer de mim se já sugaram tudo que eu tinha? Acredito que passar pelo que estou passando já é missão o suficiente. Sabe filha, desde que você se foi, dei por cumprida a minha parte.
Nenhum espírito fala do esforço, quase que sobre-humano, que eu estou fazendo pra continuar; da nossa casinha que eu tento manter sempre bonitinha e arrumada para que você seja sempre bem-vinda; ninguém fala das nossas conversas; das musicas que tocamos e cantamos juntas; das visitas a nossa família que ainda faço, nos poucos momentos que consigo sair de casa.
Tudo pra mim é um sacrifício enorme, então por que só pedem que não sofra e não chore? Não é justo. Porque não dizem que você está feliz com meu esforço, não falam da sua alegria ao me ver tentando; porque não pedem que eu descanse e consiga relaxar; porque não me deixam simplesmente chorar sossegada? Saudade e dor, minha filha, nunca vão sair do meu coração e é natural que se revertam em lágrimas.
Acostume-se minha filha, porque vai ser assim até o dia da minha partida. Lembra como você implicava com o meu cigarro e eu, pra te amolar, dizia que meu ultimo suspiro seria uma tragada, hoje tenho certeza que meu ultimo suspiro vai ser de alivio e alegria.
Escrito por maedavivica às 22h35
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| 18/11/2007 |
Ventos
Vi, meu amor, os ventos estão mudando muito lentamente por aqui, mas estão mudando nestes últimos meses. A nuvem de dor e pesar nunca mais vai abandonar nossa família; a morte mudou nossa cara.
Mas parece que as coisas estão melhorando, não pra mim, você sabe que meu único desejo é reencontrar você, mas pra nossa família.
Desejos antigos, sonhos, realizações, estão tomando forma e seguindo rumo. Acredito que no ano que vem muita coisa já estará diferente e melhor.
A vida vai ficando mais parecida com a sua suavidade, dá pra sentir sua delicadeza, ouvir seu riso. É como se você abrandasse a todos. Finalmente estamos tomado consciência da grandeza de suas asas que nos protege e encaminha.
É difícil filha, não deveria, mas é muito difícil ser mãe de um anjo. A tristeza de sua ausência, a falta que você me faz não me deixa entender a beleza de sua nova vida.
Sou egoísta. Queria você aqui. Queria muito que você participasse dessas boas mudanças, porque por melhores que elas sejam, não serão completas.
Meu coração estará pra sempre modificado, mais vazio, muito mais triste. Se hoje eu peço alguma coisa, é pra conseguir entender.
Quem sabe se novos ventos não me tragam você de alguma forma; quem sabe não me levem até você.
Escrito por maedavivica às 10h40
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