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| 08/12/2007 |
Amanhã dia nove de dezembro é comemorado o “Dia Internacional em Memória dos Filhos que já Partiram”; às vinte horas, em todo o mundo, uma mãe, num gesto dolorido e calado, estará acendendo uma vela em memória de seu filho.
Por que não importa o idioma falado, o coração não identifica espaços nem distâncias; em qualquer parte do planeta saberemos reconhecer esse olhar sem brilho, esse coração pesado. Não importa a quanto tempo eles tenham partido, nem a maneira como tenham ido, serão sempre nossos filhos.
Filhinha, meu coração não deseja que sua vela seja a maior ou a mais bonita, quero apenas que ela brilhe. Que você possa receber essa luz como um beijo meu; que você veja e sinta e que esteja ao lado de outros filhos.
Escrito por maedavivica às 18h19
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Minha história é a história da minha família, mas gostaria que não fosse, queria libertá-los dessa dor. Posso lidar com minha tristeza, dou conta de sofrer sozinha, mas não agüento ver o sofrimento deles. Ninguém mais é completamente feliz.
O que vejo hoje é que minha família se uniu e se desintegrou ao mesmo tempo; de uma forma, nunca estivemos tão unidos, de outra, cada um tenta seguir seu caminho e nos reunirmos tem trazido mais dor do que alegria. A ausência é mais completa nessas horas.
Tentamos. Talvez fazer de conta que já passou, talvez fingir que aceitamos, mas a tristeza está em cada olhar desviado, em cada lágrima escondida, numa tentativa de um não magoar mais aos outros. Evitamos olhar as fotos espalhadas pela casa, cada porta retrato é um aperto no coração.
A dor não é mais só um momento, é uma constante.
Eu vejo minha família como pessoas, de repente, jogadas na imensidão do mar, sem entender direito o que aconteceu, sofrendo, se debatendo, tentando manter a cabeça fora d’água; um de nós se perdeu na escuridão e não há como recuperá-lo. Simplesmente o mar vai nos carregando e nos deixamos carregar.
Escrito por maedavivica às 10h58
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| 07/12/2007 |
Dezembro, que já foi nosso mês preferido, é hoje o mês do inferno. Sei que todos os dias são iguais pra quem perdeu um filho, mas determinadas datas nos atingem mais.
Nessa época do ano eu e a Vi estaríamos, não só nos preparando para a festa de natal, mas também separando o que deveria ser doado. Desde de que ela era pequena nós fazíamos isso e ela era tão cuidadosa... seus brinquedos e suas roupas eram doados quase que perfeitos.
Escuto ela dizendo: esse é po pobis, né mãe.
Claro que ela quebrava alguns brinquedos, estragava algumas roupas, não era perfeita, embora eu achasse. A obra prima da minha vida, meu maior feito e nem isso eu fiz direito. Porque?
Não sei se minha dor seria diferente se ela tivesse morrido de outra forma, toda morte é morte e nos atinge de forma brutal, mas se não fosse genético talvez eu não me culpasse tanto.
Sabe, eu fico pensando... dizem que escolhemos nosso destino. É mentira. Eu escolheria ter vindo cega, surda, muda, mendiga, tetraplégica, mas nunca perder uma filha.
Se cometi todos os erros e pecados que me foram permitidos, se tive que pagar por eles, porque sacrificar uma vida?
Essa justiça injusta, esse deus desconhecido, essa trajetória inutilmente dolorida. Isso é vida?
Escrito por maedavivica às 09h07
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| 04/12/2007 |
Hoje acordei pensando em todas as reações estranhas que eu tive desde aquele dia e que até hoje me atormentam.
Alguns meses depois eu fui ao banco pra fechar a conta da minha filha, porque, eu ainda não sei; chorei tanto, tanto, que me tiraram da fila, me deram água e me fizeram esperar sentada numa cadeira; fui sozinha, mas pra que?
Por que eu tive que ir pessoalmente separar todas as suas coisas, tudo que pertencia a minha filha e fazia parte dela, suas lembranças, seus presentes, suas roupas, os móveis, tudo de que ela gostava tanto; pra quê?
Vidas que se acabavam nesta morte estúpida. Talvez eu precisasse fazer tudo isso pra tentar assimilar este perda.
Lembro de uma das mães enlutadas contar que parecia estar acontecendo com outra pessoa, sozinha, ela tomou todas as providências, recebeu todas as pessoas. O que é para uma mãe ir até o IML, escolher o caixão, providenciar as flores? São certamente reações de dor e desespero.
Uma delas me contava que foi ao shopping procurar a camisa de um time de futebol com a qual seu filho queria ser enterrado e o que fez esse filho pensar que seria enterrado pela mãe? A Vi me dizia que queria doar seus órgãos. Lembro então, de um trecho do livro Fernão Capelo Gaivota, onde ele diz que “se você prestar atenção vai descobrir o que já sabia”.
Será verdade?
O que acontece com a cabeça de uma mãe quando perde um filho eu não sei, se é uma anestesia, um choque fulminante, não sei dizer, mas com certeza acontece antes desse fato chegar ao coração porque depois disso só sobram a dor e a saudade.
Todas nós carregamos o peso de ter agido de maneira estranha e isso acarreta não só o sentimento de culpa, mas o medo de ter sido julgada pelos nossos atos.
Uma parte de nosso cérebro nunca mais volta a funcionar, talvez isso nos mantenha vivas; nossas reações são anormais mas verdadeiras, algum botão se desliga de maneira automática para que a gente consiga continuar vivendo.
Talvez tudo seja mesmo misteriosamente planejado, talvez de maneira minuciosa o tempo venha nos preparando, se há mesmo “mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”, não sabemos, mas nada, nada neste mundo nos prepara pra esse pesadelo.
Escrito por maedavivica às 09h04
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