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| 13/12/2007 |
Já falei que fico jogando free cell, mas o que eu não falei é como me sinto a respeito. É tão idiota, tão burro e o mais difícil é pensar que foi uma das poucas coisas que me restou fazer. Tira de lá, põe pra cá, tira de cá, põe pra lá; acho que é o não compromisso com nada que me faz jogar, mas cada vez que eu abro o jogo, choro, tenho raiva do que a vida fez pra nós.
Em que eu me transformei? onde está aquela pessoa que já gostou de poesias, que desenhou muito na vida, que adorava esculturas; onde está aquela pessoa que lia muitos livros e escutava musica o dia inteiro, alguém de um humor mal humorado, que adorava as panelas?
Já tive convites pra voltar pra escultura, já pensei em ir até a Associação de Belas Artes, desisti das aulas de teclado. A depressão não me deixa fazer mais nada, mas descobri também que não é só por isso, eu sou outra pessoa; mudou o gosto da vida.
Não estou tentando descobrir mais nada, nem saborear qualquer coisa; estou como outras mães, com medo de chegar até os oitenta. Já ouvi de muitas mães enlutadas: que pena que eu não estava aquele avião que caiu; porque aquela bala perdida não me atingiu.
Quem não teve essa horrível experiência, não tem noção do que é; nós vamos sobrevivendo, vivendo nunca mais. Podem achar que somos pessoas fracas, que não queremos reagir ao ocorrido, mas, quando de madrugada, nos vem a imagem do enterro de nossos filhos, quando a saudade é tão grande que queremos sair gritando pelas ruas, quando a dor nos faz querer sair pela janela... só nós sabemos.
Escrito por maedavivica às 14h25
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| 12/12/2007 |
O simancol
Não adianta dizer que a festa é a mesma com nossa presença, que as pessoas agem de maneira normal, isso não acontece, por mais que você se esforce, é aí que entra o simancol.
Não significa que não podemos sair de casa, significa que devemos nos preparar pra isso. Somos mães aleijadas, eu não tenho duvida disso, mas não precisamos depender de muletas, viver sob o estigma de coitada.
Por mais que me doa falar sobre isso, tenho que admitir que sofrimento cansa, tenho que pensar que minha família tem a família deles, que os outros não tem culpa do que nos aconteceu.
Já me vali da condição de mãe enlutada, pelo menos uma vez e foi indesculpável. Usar o camaleão que temos não é fingir, é se adaptar. Não temos, enfim, o direito de expor nossa dor o tempo todo.
Sei da necessidade que temos de falar de nossos filhos, sei que a lágrima teima em cair, sei que estamos sozinhas nessa dor, porque quem não perdeu um filho, não consegue imaginar.
Tem dias que a gente se sente Como quem partiu ou morreu A gente estancou de repente Ou foi o mundo então que cresceu... A gente quer ter voz ativa No nosso destino mandar Mas eis que chega a roda viva E carrega o destino prá lá ...
Chico Buarque de Holanda
Escrito por maedavivica às 09h19
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| 11/12/2007 |
Dia dezesseis está chegando, vão fazer dois anos que você se foi e porque será que dois anos pesam mais do que um ano e onze meses?
Vamos levar flores pra você e eu já estou pensando em qual delas vou comprar, quero a maior, a mais bonita, é engraçado... falando assim dá a impressão de estar festejando.
Eu e sua avó não agüentamos ficar lá por muito tempo, é um lugar muito triste, mas não tem cena mais triste do que ver seu avô diante de seu tumulo.
Vovozinho, como você o chamava, beijava a carequinha dele e dizia: oi bonitinho.
Eu e sua tia estamos pensando em, um dia, morar numa praia e quem sabe o vovô e a vovó vão juntos, mas em dois apartamentos, por que somos uma família geniosa.
Morar com sua tia vai ser bom, caminhar na praia, ter com quem conversar, mas é dolorido e constrangedor estar pensando no futuro.
Sua avó me disse que só com ela eu não consigo morar, fiquei muito triste, mas não é pelas razões que ela acredita, na verdade somos muito parecidas e depois, olhar pra ela é ver você.
Não só fisicamente parecidas, mas de temperamento também; as duas sempre juntas, sempre rindo; ficavam horas no telefone e eu me perguntava o que será que tinham tanto pra dizer de um dia para o outro.
Enfim, minha filha, foi só o que nos restou, lembrar de você. Novas conversas nunca mais serão geradas, novas lembranças não serão mais construídas; o tempo parou naquele dia.
São dois anos e só agora tenho coragem de enfrentar seu sorriso e te dizer bom dia: bom dia pra você que foi minha vida, bom dia filhinha querida.
Escrito por maedavivica às 09h03
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| 10/12/2007 |
Quando eu recebo comentários neste blog, principalmente de pessoas que não me conhecem e que não tiveram o privilégio de conhecer a minha filhinha, acredito que, aquele primeiro impulso de colocar a dor pra fora e torná-la publica, foi a melhor decisão que eu tomei.
Passo aqui muitas horas, escrevendo, lendo mensagens do grupo de mães e desabafando. Vou escrevendo tudo que me vem à cabeça e que está no coração; como diz minha irmã, hoje eu já não tenho mais peneira, vou falando tudo.
A princípio foi uma maneira de ficar mais próxima da minha filha, foi muito dolorido estar em seu espaço; tantas vezes ela quis me ensinar, mas eu não me entusiasmava, computador é pra gente jovem, eu dizia.
Também precisava organizar os papeis espalhados por todos os lados; folhas e mais folhas escritas numa compulsão de dor; na maior parte das vezes eu nem entendia minha letra. O primeiro texto foi escrito para a campanha de doações de órgãos, meu depoimento para o ABTO.
Hoje percebo que, de alguma forma, tenho sido uma ajuda pra alguém, esses recados me fazem bem e me fazem pensar que talvez essa seja a maneira de eu tenha encontrado para continuar vivendo.
Muitas vezes me cobraram uma “missão” que eu não entendo, quem sabe essa seja a resposta.
Escrito por maedavivica às 21h41
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| 09/12/2007 |
Sei que tenho direito a toda felicidade, mas não essa felicidade terrena, passageira, tão cheia de dores; tenho direito aos céus; direito de um dia, quem sabe logo, descansar na eternidade.
Fui mãe... mãe com todas as letras, com todos os amores possíveis; fui mãe com todas as obrigações rotineiras, com todos os temores necessários. Fui mãe em tempo integral, todos os dias.
Fui mãe de sopas, de fraldas e suquinhos; fui mãe de tombos, machucados e pediatras; fui mãe de escolas e cursinhos, de caratês e lições de casa.
Fui mãe de jogos, de passeios e brincadeiras; fui mãe de parques, shoppings e clubes; fui mãe de festas e aniversários; de super-heróis e castelos de areia.
Tive todas as alegrias dessa vida; pude, mais do que muita gente, ouvir um anjo me chamar de mãe e, se hoje choro de saudade, meu coração me diz que valeu ter tido um amor tão grande, mais do que eu fui mãe, essa pessoa tão especial, foi minha filha.
Escrito por maedavivica às 22h15
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Escrito por maedavivica às 21h40
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Estou ansiosa aguardando a hora de acender uma vela pra minha filhinha e estou tão triste, tão triste, tão triste...
Ligo o computar pra me distrair e lá está: morre piloto em Interlagos.
Mais um jovem que deixa essa vida, mas não consigo parar de pensar que é também mais uma mãe que se junta ao nosso grupo de mães sofridas.
Tudo volta na memória, como tem voltado milhões de vezes; sinto a dor dessa mãe. Talvez por já ter visto tantas vezes seu filho nas pistas, receba em casa a notícia, talvez tenha presenciado o acidente, que importa agora, seu filho se foi e isso é tudo que seu coração consegue assimilar. Ela ainda não tem a menor noção do que vai enfrentar.
Se minha filha permitir, e eu sei que vai, porque seu coraçãozinho sempre foi gigante, vou acender duas velas na minha janela, porque essa mãe ainda não tem condições de entender este gesto.
Escrito por maedavivica às 18h19
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