 |
|
|
| 21/12/2007 |
Pra quem perdeu a filha às vésperas do natal, essa é a pior época do ano pra sair de casa, mas meu cartão do banco foi bloqueado, um ship, um novo formato, não importa, eu tive que ir trocá-lo.
Essa agência fica longe de onde moro atualmente e era onde minha filha tinha conta. Chegar até lá estava difícil e eu ia dizendo: calma Celia, você consegue; já passou por tanta coisa, não é um banco que vai te detonar, mas detonou.
Próximo de onde morávamos, muitas vezes fomos juntas até lá e eu já entrei na agência chorando. Chorei tanto que não conseguia dizer: bloqueado. Alguns perguntavam se eu estava bem, outro me trouxe água, alguém me fez sentar, mas tem sempre um ser humano idiota; uma senhora me batia nas costas e dizia: calma, é só um cartão bloqueado.
Eu queria desbloquear uns tapas na cara dela.
Sabe, tem coisas que ainda não consigo fazer ou passou aquele tempo em que, anestesiada, eu fazia qualquer coisa; fico contente de não ter que sair de casa e encontrar gente assim; graças aos meus pais, hoje eu tenho o privilégio de poder não pensar em nada; se eu tivesse que lutar pra sobreviver, sei que não agüentaria.
Tenho medo do futuro, da dependência de alguém. Sei lá... acho que solidão aos cinqüenta e diferente de solidão aos setenta. Ás vezes me vejo sentada sozinha num asilo, velhinha... e isso é meu inferno e o inferno já está bem grande.
Espero sinceramente que mais nenhum ship seja trocado, que não vença nenhuma conta, que um cano não vaze, que o pão não acabe e que nenhuma idiota fique batendo nas minhas costas.
Escrito por maedavivica às 12h11
[]
[envie esta mensagem]
|
| 20/12/2007 |
Me arrisco em dizer que rejeito melhoras. Preciso de um psiquiatra, mas se um dia eu disser que estou bem, aí então preciso ser internada.
Não há como ter melhoras; além da saudade insuportável, tudo me leva a minha filha, seja um programa que ela gostava, uma musica; seja uma moça que eu vejo passar pela rua, um casamento, universitários, tudo.
E depois, não adianta... ela era minha filha; não a sua, não a dos outros, mas a minha. Não quero dizer que só os outros filhos devessem morrer, não é isso, mas que dói menos a dor dos outros, é uma verdade.
O seu é seu, faz parte de você; faz parte do rumo que você tomou na vida, das expectativas, dos sonhos que sonhou; e dói fisicamente essa perda; faz parecer que só você foi injustiçada.
Hoje, me emociono com todas as mortes, de todos os filhos, mas tive que passar por esta dor pra senti-la profundamente, não foi de graça, teve um preço muito alto. Se eu sentia pena das mães enlutadas, sou agora uma delas.
E é tanta dor misturada, tanta tristeza. Não me considero, como muitas, uma mãe escolhida por deus, ao contrário, sinto que fui abandonada.
Escrito por maedavivica às 08h08
[]
[envie esta mensagem]
|
| 19/12/2007 |
Realidade
A morte da minha filha acabou comigo, mas hoje... estou diferente; mais cética, mais dura ou mais realista, não sei, ao mesmo tempo, essa realidade me deixa mais enfraquecida.
Não aceito, mas sei que ela morreu.
Lidar com essa ausência fica cada vez pior; fica mais cruel a cada dia, porque fica mais evidente. Se essa ausência passou a fazer parte da minha vida, eu me pergunto se estou me acostumando a ela.
Será possível que saudade possa virar rotina?
Não sei dizer; sei que dois anos depois já não espero que minha filha abra a porta, já não atendo ao telefone achando que possa ser ela; isso é uma melhora? Significa que eu entendi o que aconteceu?
Só sei que sinto muita, muita, muita falta dela.
Aquele período em que a gente não acredita, de certa forma é mais suave, talvez por isso as mães sobrevivam, porque as fichas vão caindo bem devagar. Um dia a gente acorda e diz: ela se foi... e essa falta, já foi absorvida por nós.
Escrito por maedavivica às 08h38
[]
[envie esta mensagem]
|
| 17/12/2007 |
Ontem foi um dos dias mais tristes que eu já passei, sei que não existe diferença, que tanto faz, mas dois anos pesam; caiu em cima de mim com o peso de uma montanha; toneladas de terra sobre meu corpo, por isso ele dói.
Os grupos de apoio dizem que devemos alcançar a “recuperação possível”; é o máximo que conseguiremos. Estou tentando, mas aí aparecem as datas: um mês, seis meses, um ano, dois e mais, dia das mães, aniversários, natal. Quando conseguimos, numa luta sangrenta, subir um degrau, nesses dias, descemos dez.
Minha vida é um cortejo eterno, cheia de assombros e repetidas mortes.
A maior parte do tempo estou tentando melhorar, mas sei que estou tirando leite de pedra; não dá, não sou nada sem minha filha...só uma demência ou uma lobotomia me fariam esquecer e se eu não esqueço, não me conformo, se não me conformo, sofro. Todas as lembranças são boas, mas são lembranças.
A morte não é só a ausência física, é a falta de sons, a falta de imagens, a falta de novas memórias; falta o beijo tão gostoso, o abraço apertado; falta a vontade de progredir, de ir adiante; falta interagir, dividir escolhas; falta a conversa na cama, o bom dia; falta o festejar, rir por rir, à toa; falta o gosto, o sabor; falta tudo.
Como lidar com o nada. A “recuperação possível” é só um dia cheio de calmantes.
Escrito por maedavivica às 10h21
[]
[envie esta mensagem]
|
[ ver mensagens anteriores ]
|
|
|