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| 29/12/2007 |
Revoltaaaaaaaaaaaaaada
Se tudo já é tão ruim, ainda pior é ter que me conformar;
é não poder fazer absolutamente nada diante da desgraça.
Já não tenho paciência com quem vem me dizer que foi melhor assim, melhor pra quem? E se fosse o seu filho?
Se isso não aconteceu com você, não venha com aquela historia de que deus sabe o que faz, simplesmente me dê um abraço, deixe que eu fale sobre minha filha, ela existiu, não foi só mais uma. Se você não sabe o que dizer, escute.
Jamais diga que já faz muito tempo, que já passou; não arranque de mim o que ainda sobra da minha filha; conviva com minha saudade enquanto estiver aqui ou então vá embora.
Sei como é difícil pra quem não sofreu essa dor, entender; tenho consciência de que a vida segue, mas repare, por alguns segundos, no vazio ao meu lado. Se você não se comove, não se arrisque em me consolar.
Se eu não saio de casa, é também pra não passar por constrangimentos; eu choro, choro o tempo todo, em qualquer lugar e à exceção da minha família, ninguém tem o direito de questionar minhas atitudes, não sou animal no zoológico.
Isso é, principalmente pra você, que me questionou e julgou enquanto eu chorava.
Escrito por maedavivica às 09h47
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| 27/12/2007 |
Acredito que ninguém tenha idéia de como são os votos de “Feliz Natal” entre nós, mães enlutadas; ninguém deseja felicidade ou alegria; nenhuma de nós quer mais do um pouco de conforto. Ficamos pisando em ovos, em surdina, esperando que toda essa festa, da qual já não participamos, acabe.
A passagem de ano é ainda pior, porque não temos nada pra recomeçar e não podemos deixar pra trás o passado, porque o passado é agora nossa vida. Aquela lista enorme de modificações planejadas em cada ano, ficou restringida pra nós, ao único item que nos interessa, partir.
Os fogos batem em nossos corações como bombas de uma comemoração macabra e doem no fundo da alma. É mais um ano que vamos começar sem nossos filhos e cada vez mais, isso nos parece uma injustiça; eles, jovens, é que deveriam estar aqui.
Penso em quantas esperanças e sonhos tinha minha filhinha; em tudo o que ela ainda queria fazer; lembro da alegria dela, vestida de branco; de todos os seus desejos e expectativas; lembro do quanto ela era feliz e não tenho como não chorar; chorar de tristeza, chorar de saudade, chorar de raiva da vida, chorar de inconformidade.
Volto, então a primeira pergunta de todas as mães: Por que?
Escrito por maedavivica às 08h59
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| 23/12/2007 |
Ficou um cartão de natal vazio... não deu tempo pra ela escrever; olho pra ele e posso adivinhar: mãe, você é uma pessoa muito especial pra mim, te amo, te adoro; coisas assim. Ela gostava de assinar: sua filha preferida, como se tivesse outra. Tenho dezenas de cartões e bilhetes; muitas vezes ela me escrevia durante a noite e deixava pendurado no imã da geladeira para que eu achasse.
Estou mais covarde, não tenho coragem de digitalizar fotos, desenhos ou bilhetes; arrumo o armário onde estão as poucas coisas que guardei, mas quase não mexo nelas.
Já pensei, algumas vezes, no que será feito de tudo isso quando eu morrer, porque os sentimentos são diferentes; cada um guarda o que pertence a seu filho; se eu me emocionava com um bilhete que dizia: me acorda cedo, pra outros é só um bilhete. Minha pequena família acaba quando eu morrer.
Sei que as fotos, ninguém vai jogar fora, mas os bilhetes, os cartões, as pastas com desenhos e trabalhos da escola, desde o maternal; documentos, carteira de trabalho que nunca foi preenchida; a coleção de Friends; dois bichinhos de pelúcia; quem guardaria?
Materialmente falando, isso foi tudo que sobrou; lembranças a gente guarda no armário do coração e leva com a gente.
Escrito por maedavivica às 09h40
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