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| 12/01/2008 |
O estranho é saber que essa dor tão profunda, tão medonha, é comum... desde que o mundo é mundo, mães passam por isso; e o mais triste é perceber que não tem o que aprender com esta dor, não é possível nem sequer passar essa experiência adiante.
Não há o que prevenir, não há o que modificar. Meu coração sente o mesmo que você, mas de maneira diferente.
O que eu vou dizer pra você que acabou de perder um filho? que a dor passa? que melhora com o tempo? Não tem como seguir alguns passos, não existe receita; acredito que a gente nunca acorde de verdade.
Estava conversando com uma grande amiga, a pessoa responsável pelo “dordemãe”, um grupo que tem me ajudado muito a passar por este sofrimento.
À medida que o tempo vai passando, conforme vamos conhecendo outras histórias, vamos vendo nossa dor contada novamente, passo a passo; embora diferentes, temos um sentimento em comum; as reações são as mesmas.
Todas passamos pelo choque, pela não aceitação, pela revolta; algumas se voltam para Deus, outras se rebelam contra ele, mas dessa enxurrada de sentimentos ninguém escapa. A vida passa a ser uma gangorra com altos e baixos num só dia. Se agora estou melhor, há dez minutos estava muito mal.
É normal entre nós, não querer ver nada bonito, porque nosso filho não está aqui pra ver; não querer comer nada gostoso por que ele não pode comer; é natural afastar-se dos felizes; todas as mães se sentem assim.
Então, é possível imaginar a rejeição por uma melhora; o fato de sorrir quando nosso filho não pode, de conhecer lugares onde ele nunca esteve; de gostos e paladares, de visões maravilhosas; aquele desejo constante de ir embora... Só o tempo, mas o tempo de cada uma, é que vai determinar pequenas curas.
Escrito por maedavivica às 09h48
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| 11/01/2008 |
Porque eu quis colocar este texto.
Porque eu, insensível, acreditava que por não terem lembranças dos filhos que não nasceram, as mães gestantes sofressem menos.
Essa mãe, querida amiga, me falou da saudade que ainda sente de seus filhos, dos planos e sonhos que tinha pra eles; fiquei pensando na alegria de comprar o berço, aquelas roupinhas pequenas e cheirosas que a gente não vê a hora de colocar em nossos filhos e já consegue até imaginar como eles ficarão lindos.
São fraldas, mamadeiras, loções; são expectativas de uma vida feliz que acabam numa tristeza tão grande; fiquei pensando que essas mães não tem retratos na parede, álbuns de fotografias; seus filhos nunca as chamaram de mamãe, não chegaram a dar os primeiros passinhos, mas são seus filhos.
Tão triste quanto ter só lembranças, é não tê-las.
Escrito por maedavivica às 13h55
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Uma lição de vida e carinho, vinda de uma amiga especial
Oi Célia, Estou aqui novamente, li atentamente suas palavras no blog da Vivica, senti o que mora em seu coração e se não for me entrometer gostaria de te dizer algumas palavras.
Passei por 5 perdas de bebês durante a gestação, depois disso consegui refazer minha vida e tenho dois lindos filhos que Deus me presenteou. Porém não há um dia sequer que não pense como seria se meus bebês estivessem comigo.
Não passo um só minuto sem sentir uma enorme saudade de alguém que não conheci mas que marcou para sempre minha vida, sinto saudade dos planos que fiz para eles e que jamais chegarão a se concretizar.
Uma coisa eu aprendi com tudo isso, mesmo sabendo que para o resto da vida carregarei essa saudade pelos meus filhos que se foram, sei também que tenho o direito de ser feliz, não estarei traindo o amor que tenho por eles porque tenho certeza que eles me amam tanto que não querem me ver eternamente triste.
Nossos filhos Célia não pertencem a esse mundo, são anjos do céu, sua missão foi nos fazer sentir o que é o amor de verdade e nos transformar em pessoas melhores distribuindo esse amor para todos.
Por isso Célia, eu digo com toda certeza, a Vivica não quer te ver assim, ela te ama e quer o seu bem. Não estou dizendo com essas palavras que você não chore pela ausência dela ou esqueça que ela existiu, de jeito nenhum !!!!!! O que digo querida é que se dê o direito de ser feliz as vezes, faça coisas que te agradam ou rediscubra novas coisas já que tudo que você gostava antes estava diretamente ligado a Vivica.
Se sentir a dor pela ausência da vivica, chore, mais pense em transformar essa dor que te machuca tanto em uma saudade menos doida, mais tranquila.
Com toda certeza a Vivica ficará feliz em ver que não foi em vão todo o amor que ela te dedicou e que você é e sempre será a mãe que ela se orgulha de ter.
Um grande abraço com muito carinho e força pra você,
Iumara Evangelista
Escrito por maedavivica às 11h33
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| 10/01/2008 |
Filhinha, um dia desses, acordei com saudade das minhas panelas, era uma saudade tão grande da vida que eu tive com você, da simplicidade de misturar ingredientes.
Já não tenho vontade de mais nada, então fui pra casa da vovó e passei o dia cozinhando; ela ficou contente, disse que o freezer estava lindo; sabe aquele jeitinho dela, né...mas, na verdade, foi bom pra mim; acho que às vezes preciso de pequenas coisas pra me sentir viva, embora viver sem você seja muito, muito triste.
Sabe, de vez em quando, tenho necessidade de erguer a cabeça pra fora d’água, respirar um pouco, mas logo volto a submergir, vou pra dentro de mim, onde está você; é onde me sinto melhor.
Nas poucas vezes em que estou ciente da vida, sinto que estou traindo você, que não estou lhe dando a importância devida; sei o quanto você gostaria que eu melhorasse, porque você tinha essa bondade no coração, eu, mais egoísta, queria que você estivesse aqui.
Sei que, infelizmente, se você tivesse sobrevivido, estaria numa cama, sem movimentos, talvez sem consciência, então... tenho que dizer que foi melhor assim? Mas, se você fosse saudável, não teria sido bem melhor?
Não canso de me inconformar, de não aceitar, às vezes acho que não é possível que tenha acontecido; ainda tenho sensações reais de estar sentada ao seu lado, de descer a rua de casa com você; sinto fisicamente o seu contato, então...como pode ter acontecido?
Estou tão confusa nessa realidade irreal, nessa irrealidade possível. Estou com tanta saudade de nós, com tanta falta de você, o silêncio é tanto na minha vida, que não sei até quando vou conseguir. Estou tentando filhinha, estou tentando...
Escrito por maedavivica às 21h10
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| 09/01/2008 |
Ventania
O vento canta ao entrar pela janela
num coral de uivos arrepiados;
o grito triste e enfastasmado
do canto de outras épocas.
É o lamento de almas assombradas.
A chuva bate no chão como pedradas;
são pés descalços, sangrando dedos;
asas gigantes rasgando o tempo,
gemido de anjos na madrugada.
É o sussurro triste dos desencarnados.
Um grito agudo por entre as frestas,
um chamado longo e inconsciente
de anjos desfigurados, filhos ausentes;
que choram na minha janela.
Escrito por maedavivica às 08h18
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| 06/01/2008 |
O tempo
Engraçado.... como é diferente o tempo pra quem está enlutado; ele não tem nem ontem, nem hoje; tudo parece ter sido agora.
Se puxo pela memória, vejo que tudo ficou parado; como se fosse uma sombra, uma nevoa embriagante, que mistura o agora, o depois e o antes.
Está tudo nublado e já não sei onde me encaixo, se vivo no passado sou lembrança de quem eu era; se me encontro no presente, sou a espera.
Tenho a impressão de ter dormido ainda criança, o sono que mudou nossas vidas. Acordo envelhecida; me esqueço da vigília e a morte nos alcança.
Só tenho lembranças. A vida não tem mais o que me oferecer, é uma contagem regressiva; apenas inspiro e expiro num costume antigo de viver.
Escrito por maedavivica às 10h08
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