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| 17/01/2008 |
Ah querida amiga, filha adorada, penso tanto em você; escrevo tanto, tanto, mas não chega a um décimo das lembranças que tenho. Queria deixar aqui um legado de força e coragem, mas desabo todos os dias.
Ainda me sinto frágil e vazia, acredito que vou sempre me sentir assim, pequena, perdida....desconsolada.
Você partiu numa época que precisava tanto de uma mãe e eu fiquei precisando tanto de uma filha.
Diariamente vivo pequenas mortes, acho que é meu ultimo dia; sei que meu corpo está se deteriorando, sinto todas as dores, todos os cansaços, mas talvez ainda demore.
Sou toda morte, sou toda triste. Hoje estou muito deprimida.
Pra me sentir um pouco melhor, procuro me lembrar de você quando pequena, quando nem imaginávamos tamanha tristeza.
Meu bebezinho que dizia: faz coquinha mamãe, e depois dizia: ni novo. E fico eu aqui, sozinha, fazendo coquinha no espaço, nesse vazio enorme que você deixou.
Nesse mesmo espaço, lugar misterioso, onde me encontro com você, onde ouço sua voz que me chama e sinto o calor do teu corpo.
Sonhei com teu riso, tua alegria, quando desesperada eu pedia mais um pouco, só mais um dia; ni novo filhinha, ni novo.
Escrito por maedavivica às 09h25
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| 16/01/2008 |
Eu conheço um outro grupo de apoio, o Casulo, cujo objetivo é fazer nascer borboletas; pequenas gigantes mães que precisam renascer para a vida.
Toda mãe, quando perde seu filho, desaparece; perde o formato humano para se tornar casulo. Ficamos embutidas, interiorizadas, procurando uma maneira de recomeçar sem saber por onde, nem porque.
De uma certa maneira, dois anos depois, uma ponta de asa rompeu meu casulo; é por esta fenda eu olho o mundo e, sabe de uma coisa... não gosto do que vejo, nada mais faz sentido.
Tudo que eu relevava por tratar-se de conseqüências da vida, hoje eu encaro de forma mais realista e cruel; acho que, o que eu enxergo, outras pessoas não conseguem ver.
Noventa por cento do que eu era se perdeu, o resto é instinto de sobrevivência; são obrigações de quem ainda respira. Minha filha é uma luz fortíssima em minha vida, mas daria tudo, qualquer coisa, pra ela ser só uma menina.
Os grupos de apoio ajudam muito; nos fazem entender que não somos únicas, exteriorizamos nossa dor, dividimos experiências, tentamos...
A vida de uma mãe enlutada não passa de tentativas, vamos seguindo da maneira que conseguimos, porque, no fundo, sabemos que tem um fim.
Acho muito difícil que esses casulos se transformem em borboletas um dia; acredito que, no máximo, somos libélulas soltas pelo mundo, procurando um caminho.
Borboletas, lindas e coloridas, nunca mais.
Escrito por maedavivica às 09h39
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| 15/01/2008 |
Questionando...
Só vivemos uma vez neste planeta de misérias e destruições, de alegrias e deslumbramentos; dizem que temos diversas passagens por ele, só que não nos lembramos, então pra que?
A vida não é fácil pra ninguém, ninguém é totalmente feliz nem passa por aqui sem ser machucado, só que algumas pessoas são massacradas e isso eu não entendo.
Quando foi e de que maneira eu contraí essa dívida? O que eu fiz de tão errado? Porque crianças nascem deficientes, tem câncer, são jogadas fora? Por que mães perdem seus filhos?
Por mais que eu pense, me é difícil acreditar que pagamos pecados de outras existências. É um conceito muito maldoso de um deus bondoso.
Que tipo de experiência macabra nós vivemos?
Será mesmo que este planeta só existe para que a gente possa refinar nossa alma? Será ele o inferno do universo? E com este ir e vir tão dolorido, o que nos espera? A perfeição? Será que nos tornamos pequenos deuses? Pra chegar aonde?
E o que fazem pequenos deuses depois de sublimados?
Pra que servem afinal, no fim da linha, seres perfeitos?
Escrito por maedavivica às 08h45
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