Todo o meu mundo cabe numa avelã, numa semente de abóbora, num alpiste, sei lá... é um mundo de alfinetes e tachinhas, tudo aqui é pequeno; pedacinhos de coisas que consigo construir.
Um mundo de coisinhas, miudezas; sons baixinhos, pequeninos passos, o mínimo de movimentos num arfar devagarinho; é um mundo de caixinhas.
É assim que eu me sinto em relação ao universo que me cerca; pequena como uma miniatura; um pingente miudinho.
Casquinha, retalhinho, migalha... por que então resistir e acreditar na vida?
Só o amor que tive me faz continuar e amo muito mais agora, porque amar naquele tempo era fácil. Amar aquele pequeno grande milagre que eu já não esperava, amar porque ela era linda em todos os sentidos.
Escrito por maedavivica às 10h26
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É claro que eu não vou dizer nomes, mas estamos falando, no grupo de mães, sobre exumação de nossos filhos; na verdade eu sem sabia que era obrigatório, nunca tinha pensado nisso.
Quando uma das mães comentou que não via a hora de tirar seu filho dali, de tocar em seus cabelos, ver seu sorriso, eu fiquei horrorizada. Como alguém pode querer guardar uma imagem dessas?
Algumas mães mandaram mensagens dizendo a ela que esse tinha sido um ato de força e coragem, meu deus, como sou covarde; se já tenho pesadelos lembrando de minha filha em sua morte, como lidar com isso?
A descrição do ato é terrível, coveiros revirando a terra, entregando ossos num saco preto, meu deus, não será de plástico, não é? Eu não entendo por que tem que ser assim, porque não podemos, pelo menos num ato de amor ao próximo, suavizar essa visão tão cruel.
Disseram a essa mãe que seu filho estaria orgulhoso dela; eu não estou aqui pra julgá-la, talvez faça o mesmo; na verdade não sei o que pensar, não sei como vou reagir nessa hora; se todas concordam que esse é um ato de amor, então eu não amei direito, mas preciso lembrar da minha filhinha de outra maneira.
Minha doce e querida filha, perdoe essa mãe covarde, mas não quero te ver assim.
Escrito por maedavivica às 20h56
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Há tempo eu não via um verão assim, friozinho, chuvoso, “chuviscoso” como nós dizíamos; posso até dizer que está agradável, mas melancólico também. Dias assim sempre tiveram uma influência negativa sobre mim; pessoas agasalhadas, vestidas de preto, cinza ou marrom; com mais pressa de chegarem em casa e mais carrancudas também.
Não sei se estarei aqui quando chegar o inverno; tenho direito a um fim; já fiz tanta coisa nestes dois anos... conheci melhor os meus pais e aprendi a respeitá-los mais; tive um contato muito maior e mais carinhoso com meus irmãos; acompanhei as realizações de meus sobrinhos; conheci pessoas e escrevi, escrevi muito.
É difícil pensar nas estações do ano, uma após outra elas vão passando; já se foram primaveras e verões, já se foram outonos e invernos; ano após ano e todas estão contabilizadas no meu tempo de vida.
Quantas estações eu ainda vou ver; fico pensando no que mais eu terei que passar, porque todas e quaisquer futuras experiências serão tão menos doloridas, tão mais fáceis; o difícil é passar por este tempo, mas sabe...ele passa.
Escrito por maedavivica às 23h00
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