Passo muitos dias sem escrever, principalmente quando estou com muita raiva, raiva da vida, raiva da morte; se é injusto não sei, mas é humano.
Na maior parte do tempo, sinto que estou na hora errada, no lugar errado; um peixe fora d’água, um passarinho na gaiola, um animal enjaulado; estou fora do contexto, além da realidade.
O fato é que eu não tenho como mudar os fatos.
A brutalidade da morte de um filho, único ou não, não deixa seqüelas, deixa buracos enormes; rachaduras por onde o mal penetra; o mal de doenças que só as mães enlutadas adquirem.
Aquele vinco no rosto, bolsas nos olhos, insônia crônica, dores no corpo; o olhar distante, o coração disparado e aquela mágoa profunda e constante. Um outro mundo se apresenta, tão diferente do que era.
Às vezes penso que a vida vinha me preparando pra essa perda; sofri tanto de tantas maneiras que já estava calejada. Dói menos? Não, só é mais injusto. Quando eu pensei que tudo de ruim já tinha me acontecido, o pior aconteceu.
Com o tempo aprendi que a dor é mutante ou melhor, nos faz mutantes, hoje tenho a pele de um rinoceronte, nada mais me atinge; consigo me transformar como um camaleão, dependendo da situação; me escondo como uma avestruz, sempre que a dor é muito grande; mas ainda sou canguru carregando minha filha.
Se fui uma leoa enquanto minha avezinha delicada vivia; hoje não sei no que transformei; um bicho estranho e solitário, retalhado, costurado; dolorido a ponto de não sentir mais nada além da perda.
Escrito por maedavivica às 11h51
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Junto à minha rua havia um bosque
que um muro alto proibia
lá todo balão caia, toda maçã nascia
e o dono do bosque nem via...
(Chico Buarque)
Essa musica sempre tocou meu coração de forma especial, porque representa o que não está ao nosso alcance; o que queremos e não podemos ter; tudo o que está tão perto de nós e tão distante; o proibido.
Atrás daquele muro estavam meus sonhos, minhas aventuras; estava um mundo tão cheio de prazeres e poesias; meu romantismo, minha arte; tudo que eu tentava alcançar; olhar pra ele era como mergulhar em fantasias.
Parece que quem tem felicidade não se importa. Durante anos tentei, não escalar o muro, mas possuir o bosque.
Quando minha filha nasceu, deixei de lado a melancolia, todas as tristezas que sempre me perseguiam; o que estava por trás do muro já não me interessava, porque a felicidade, assim como os sonhos, estavam também do meu lado do muro; tudo aquilo, antes proibido, agora me pertencia.
Sei que hoje nada mais importa; se consegui o tão sonhado bosque, hoje ele está vazio, nem balões, nem maçãs maduras; estou cercada pelo meu próprio muro; ficou pra trás meu desejo de aventuras.
Escrito por maedavivica às 11h06
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