Por que os Filhos Morrem?

23/02/2008

Acordo engasgada, tossindo, com falta de ar; tenho pesadelos medonhos. Aos poucos o coração vai voltando ao ritmo, agora anormal, as mãos deixam de tremer, o suor vai secando, então acordo, mas não abro os olhos.

 

Respiro fundo e sinto seu cheirinho gostoso, ah perfume de vida... aqueles segundos em que não me lembro que você  já não está aqui. Quero permanecer assim o maior tempo possível; imaginando que você dorme sossegada no quarto ao lado.

 

Quando a realidade me trás de volta a esse mundo e eu começo a perceber sons  e imagens, o gosto acre da vida me atinge  em cheio; é quando eu tenho pesadelos medonhos, acordada.

 

Acredito que nunca mais despertei de verdade.

 

É quando todas as coisas perdem o valor; não sobra sequer um objeto de admiração e estima, uma planta, um jogo de chá, um enfeite, nada. É quando tanto faz como tanto fez, se quebrar quebrou, se rasgar rasgou.

 

É quando a única importância que eu tenho na vida é a importância que você teve na minha vida. É assim filha, que eu vivo entre dois pesadelos, um quando estou dormindo e um maior quando estou acordada.

 

Entre eles estão aqueles segundos...
Escrito por maedavivica às 08h53
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22/02/2008

Toda manhã ela passava em minha loja, chorávamos juntas, ela dizia que eu era uma das poucas  pessoas que a deixavam falar sobre seu filho; às vezes éramos interrompidas por alguma freguesa e aquele momento, tristemente mágico, se partia.

 

Percebia que ela ficava inquieta, porque quem sofre não quer esperar; novamente sozinhas, o assunto nunca mais retomava do mesmo ponto, alguma coisa se perdia com a interrupção e eu sentia que ela já estava longe e não teria como recuperá-la; eu apenas esperava que ela voltasse a terra e se despedisse.

 

Seu filho havia sofrido um acidente de moto, um traumatismo craniano o levara. Ela não se cansava de falar sobre ele, do quanto era bom e alegre, o mais risonho, o mais esforçado, o filho mais humano e mais chegado aos pais; ela não se cansava de dizer o quanto ele era bonito e se perguntava porque ele, não que se escolha um filho, mas o mais  emocionalmente ligado a eles, tinha que partir tão prematuramente. De repente.

 

Nem assim, com a morte em minha cara, jamais imaginei que acontecesse comigo; era uma realidade impossível a morte da minha filhinha; não...não ia acontecer.

 

Hoje, agradeço ao fato de ter tido tempo e paciência  para ouvi-la, de ter permitido que essa mãe desabafasse sua dor sem pressa, sem nenhuma crítica, sem nenhum julgamento. Agradeço por ter chorado junto com ela; pelo abraço afetuoso que eu lhe dava todos os dias.  Comunhão, cumplicidade. Acho que essa é a face da amizade.

 

Isabel, minha amiga, saudade....
Escrito por maedavivica às 15h56
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Essa semana reparei que o numero de visitas a esse blog era de  mais de seis mil pessoas e pensei: nossa isso é muito gente; fiquei prestando atenção é vi que há uma média de quinze visitas por dia. Meus pais, minha irmã e quem mais?

 

Ontem quando abri o blog o numero registrado era  6600, mas quando fechei percebi que 79 pessoas haviam visitado esse blog; o registro era 6679 por volta da meia noite e hoje já o encontrei com 6729 visitas,  nossa...  é uma barbaridade de gente.

 

Se tive poucos, fiquei reduzida a nenhum amigo e então, pela primeira vez comecei  a pensar, quem são essas pessoas, o que eu digo a elas, será que tenho de começar a me policiar, corrigir erros, pensar antes de escrever?

 

Não posso... preciso colocar pra fora a minha dor da maneira que ela vem, maior ou menor, calma ou revoltada, certa ou errada. Não tenho condições de pensar ou rascunhar, a idéia nunca foi essa, senão não diria nada e preciso dessa tela mais do que preciso respirar.

 

A única coisa nessa vida que eu não tenho como superar é a morte da minha filhinha, minha bebezinha querida. Vivo de pensar e ouvir que valeu a pena, que ela era um ser especial, mas quando olho um porta-retratos...  ah, não dá pra entender nem aceitar.

 

Fico olhando aquela carinha linda, tão quista, tão amada...tenho raiva e não tem como dizer isso de maneira bonitinha e por mais que eu escreva ou descreva essa dor não tem como definir o que eu sinto.

 

Palavras religiosas, frases feitas, estatísticas, estudos psicológicos, grupos de apoio; tudo isso só me faz sobreviver. Devagarinho, um dia de cada vez.

 

Sei que nem mesmo outras mães enlutadas entendem ou aceitam o que eu digo, porque cada uma de nós age e reage de um jeito e pensam de maneira diferente.

 

O que eu vou fazer... a única coisa que eu sei e que não posso pensar nos números como sendo pessoas; tenho que me esquecer de vocês, se quiser continuar escrevendo.
Escrito por maedavivica às 08h10
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20/02/2008

O mercado já está cheio de ovos de páscoa; eu nem sei quando é a páscoa, mas ao me deparar com aquelas fileiras coloridas, fiquei lembrando da infância; minha infância, a infância da minha filha.

 

Vovó escondia os ovos, foi sempre assim...

 

Minha mãe sempre foi uma festa, se hoje ela é só tristeza, durante toda a vida nos alegrou; meses antes do natal os pacotes já estão embrulhados e sempre havia espaço pra mais um; festas de aniversários, casamentos, bodas ou até mesmo um domingo em família; assistir uma comédia ao lado dela era uma sessão à parte, rindo da sua risada solta e divertida.

 

As ultimas páscoas passamos no sitio, eu e a Vi morávamos no interior. Durante a noite minha mãe e meu pai saiam pra esconder os ovos e, crianças ou adultos, todo mundo tinha que sair procurando. Eram tantos que uma vez o caseiro achou um deles bem depois da páscoa.

 

E, ao som de: achei, é meu, é meu...vivemos o melhor de nossas vidas.

 

É preciso estar presente em cada fato, é preciso que se dê importância a todas as coisas, porque todas as coisas um dia viram lembranças.
Escrito por maedavivica às 12h42
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19/02/2008

Não que o amor seja diferente,

amar é amar,

mas é um amor muito maior,

amar alguém ausente.

 

Por mais que seja estranho,

amar o inatingível, o intocável,

é amar de um só lado,

um amor sem interesse.

 

O que se pode dizer...

não é mais um amor vigiado,

alguém pra ser educado,

que lhe traga prazeres.

 

Amar quem não está presente

é amar dobrado,

um amor distante, velado,

imensurável, pra sempre...



Escrito por maedavivica às 10h15
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17/02/2008

Quando relembro meu passado, vejo que já nasci com a alma triste, me identificava muito mais com Brahms e Tchaikovsky do que com Elvis.

 

Lembro de pensar que tinha nascido em época errada, que me via com longos vestidos em salões de valsas. Vivi com meus desenhos, poesias e esculturas sempre em fundos de quintal.

 

Quando saí pra vida tive a irresponsabilidade de quem detestava um sub emprego, não se identificava com o dinheiro.

 

Minha filha me trouxe à realidade, me situou no tempo; consegui me localizar nesse mundo que eu desconhecia.

 

Tive então tantas alegrias. Reconheci o valor de cada minuto, do tempo que eu não contabilizava; da importância que eu não dava pro futuro.

 

Senti o ar da vida pela primeira vez; minha filha não era uma boneca  com quem eu brincava, nem uma escultura que eu fazia.

 

Trabalhar por ela me gratificava; ter dinheiro pra lhe comprar tudo que o dinheiro comprava.

 

Talvez já fosse tarde... não assimilei direito a sobrevivência, não entendia a ganância ou a concorrência, não me tornei uma profissional de nada.

 

Lutei com o que sabia, da maneira que podia e hoje  não tenho nada; sem minha filha, nem valsas nem sonhos.

 

Perdi de novo a noção do tempo e a importância do futuro; fiquei perdida entre o antes e o depois.

 

E agora... no vazio do espaço, me pergunto o que sou ou quem; uma terceira pessoa sem significado que já não luta, já não se importa.

 



Escrito por maedavivica às 08h46
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BRASIL, Sudeste, Mulher, MÃE


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