Por que os Filhos Morrem?

15/03/2008

Dois anos e três meses depois ela me ligou; não consegui dizer uma única palavra.

 

Num discurso ensaiado, falou sobre como eu deveria reagir; como tudo passa; disse que o que fez por mim foi me dar o tempo de que eu precisava.

 

Como ela pode saber do que eu preciso se depois de quinze anos de amizade, nem sequer imaginou que, talvez, eu precisasse da amizade dela.

 

Como as pessoas supõem que sabem do que eu preciso; o tempo todo tendo que ser forte para segurar os fracos que não sabem o que fazer comigo.

 

Não me arrependi de não ter dito absolutamente nada, assim talvez eu tenha dado a ela o que ela precisava, a desculpa pra poder dizer: eu tentei, fiz o que pude.

 

Dois anos e três meses depois, querida ex-amiga, nem precisava, como você disse, já passou... nem estou mais magoada.
Escrito por maedavivica às 11h17
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Estou perdida aqui no orkut; eu nem sei direito o que é, mas gosto de, de vez em quanto, ler os recados que seus amigos ainda deixam pra você; saber que você deixou tanta saudade.

 

Nunca tive coragem de entrar em contato com nenhum deles, penso em telefonar, mas não saberia o que dizer; a vida seguiu pra todo mundo, menos pra você.

 

Vi as fotos de formatura da sua melhor amiga; recados do seu maior fã, seu ex namorado; li as últimas mensagens que você deixou antes de partir.

 

Estou desesperada filha. Não foi justo. De repente fica assim tudo no ar, a vida simplesmente acaba; meu deus, não havia razão, não precisava ser assim.

 

Amanhã serão dois anos e três meses sem você; todas as lembranças que eu tenho são maravilhosas, mas tenho que lidar também com suas últimas palavras, com suas últimas fotos, seu último dia; tenho que lidar com sua última imagem, que não me sai da cabeça.

 

Se me falam numa justiça divina, eu me revolto porque você, inocente, fazia planos, nem sabia. Que covardia; penso que a morte venha de um deus magoado, que entregou o próprio filho, na esperança de salvar sua criação.

 

Penso que ele nem exista, penso que você já não existe, penso que não foi assim que eu sonhei viver nossa vida; penso em tanta coisa, filhinha, mas não vejo uma única razão para uma morte tão prematura, não tem explicação.

 

Todos os segundos que ainda me restam, serão pra lembrar de você; seu primeiro sorriso, seus primeiros passinhos, suas primeiras palavras; tudo o que você foi e fez em sua curta passagem por este planeta.

 

É pouco, filha, você foi uma pessoa que merecia ter tido mais; tinha direito a mais lembranças, mais experiências, mais tempo de vida.

 

Mudar o que aconteceu, por mais que eu queira, não posso, mas não me peça pra seguir em frente, não me diga pra não chorar, por favor, filhinha, não me peça pra me conformar.
Escrito por maedavivica às 23h47
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14/03/2008

Me lembro de dias ensolarados, dias nublados, me lembro de dias corridos, agitados, mas os que eu mais me lembro são os dias de cobertores.

 

Aqueles dias em que nós queriamos ficar em casa; quando eu ia sair você dizia: ah, não vai não mãe, fica aqui comigo; enquando você se arrumava para ir pra escola, era eu quem dizia: ah, falta hoje filha, fica aqui comigo.

 

Dias de se encorujar, de se enrrolar e ficar quietinhas, quentinhas... janelas entreabertas, penumbra. Que gostoso filha, que saudade. Dias silenciados, o corpo aquecido, o coração satisfeito.

 

Lembro de cada detalhe do seu rostinho; do sorriso de lado, dorminhoco; cabelinho de anjo; sombrancelhas arqueadas;  narizinho arrebitado;  lembro do beicinho que você fazia pra pedir alguma coisa.

 

Sinto esses momentos como se eles não tivessem passado, são memórias do agora; como se ainda os estivessemos vivendo. Fecho os olhos, deixo que a penumbra entre, me encolho no velho cobertor e aqui estamos nós, como se nada tivesse acontecido.

 

 



Escrito por maedavivica às 13h45
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13/03/2008

Ontém decidi dar uma chance, não para a vida ou para o futuro que já não tenho, mas para o tempo que ainda me resta viver.

 

Uma grande amiga, fundadora do grupo “dor de mãe”, além de uma bondade muito grande, sabe, como mãe enlutada há mais tempo, que durante um um certo período, é preciso “pegar pela mão”.

 

Esse período depende de cada uma, de como vive, do que tem pra lutar e em que acredita, mas a princípio, não adianta dizer, faça isso, faça aquilo,  porque a confusão emocional não nos permite tomar decisões, nosso cerebro não registra e nosso corpo não obedece.

 

O “pegar pela mão” significa não desistir, não dizer simplesmente, eu fiz o que pude.

 

Passei uma tarde como há muito tempo não passava, fui recebida com carinho e alegria; conversei, ri, tomei café, recebi abraços, abraços tão importantes para quem já não os tem de um filho.  

 

Se meu coração não voltou a bater, pelo menos ele balançou um pouquinho e é disso que eu tenho vivido, do carinho da família e dos amigos.

 

 

 


Escrito por maedavivica às 08h46
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11/03/2008

Às vezes é dificil para as pessoas entenderem como uma alma ferida com tamanha gravidade, tenta a todo custo se recuperar. Perder um filho é ter uma ferida que não cicatriza nunca mais.

 

Uma, das poucas coisas que nos fazem bem, é falar de nossos filhos; entendemos que a vida dos outros segue em frente; de uma maneira ou outra, a nossa segue também, só que a ferida sangra, a saudade dói e precisamos falar sobre eles porque as pessoas se esquecem.

 

Quem não perdeu um filho, não pode avaliar esse sentimento que nos faz querer que eles sejam sempre lembrados, mas pode respeitá-los.

 

Uma das amigas, durante uma festa, em que ela, com certeza, nem gostaria de estar, porque festa pra nós perdeu o sentido, recebeu a seguinte demonstração de carinho e amizade: Obrigada por voce nos "brindar" com sua tristeza,  vc não percebe que nos constrange!

 

Até que ponto este ser é humano, até que ponto essa pessoa acredita ser tão superior, que tem certeza que nunca vai acontecer com ela.

 

Se desejamos que aconteça? Não... As mães verdadeiras, enlutadas ou não, não tem essa maldade no coração. Que a arrogância desta pessoa não contamine a alma de outras, que ela não sirva nem sequer de um péssimo exemplo.



Escrito por maedavivica às 22h04
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- por que a vida é agora

- lugar de gente feliz

- a felicidade não tem preço

 

Isto soa como se só minha filha não existisse mais.

 

O tempo todo vejo jovens vivos e felizes e não tem como não perguntar: porque a minha? Não... eu não aceito que outros tenham mais direito à vida que minha filha. Minha cabeça não registra a idéia de que ela vive mais feliz agora em outro lugar, porque o lugar dela sempre foi aqui, ao meu lado.

 

Minha filha tinha o direito a esse planeta maldosamente belo, tristemente alegre. Era jovem, pouco conheceu desta vida, foi embora sem sentir tantas sensações, sem conhecer tantos lugares, sem perceber sequer que valia a pena.

 

Esse vazio que fica não é só interno e externo também, o meu redor diminuiu. As fronteiras à minha volta se tornaram tão menores, que eu consigo localizar meu próprio espaço quando me movimento. Ando e comigo anda meu mundo.

 

Esse é o apocalipse de cada um.

 

É perceber que toda a estrutura física, emocional, racional, molecular, se modificou. Sou outro ser humano, nascido involuntariamente de uma dor inesperada, arrancada a fórceps para a vida.

 

Meu espaço é hoje minha própria sombra, não chega a um metro de distância de mim mesma; além... ficam as pessoas felizes.

 



Escrito por maedavivica às 09h32
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09/03/2008

 


Escrito por maedavivica às 10h18
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