Alguns dias antes e alguns dias depois de ir ao cemitério, eu fico acabada; é muito difícil ter que passar por isso, porque nem sequer posso fingir que não aconteceu, começa novamente o processo de enterro e morte, tudo o que eu quero esquecer, volta nesse momento; é muito dolorido, mas como posso abandonar definitivamente quem eu tanto amei; o mínimo que posso fazer por minha filha é deixar-lhe flores.
A falta de religiosidade torna tudo mais cruel; não consigo imaginá-la em outro lugar, gostaria, mas não consigo; acredito que tudo acabou com sua morte, mas meus sentimentos são contraditórios, porque ainda falo com ela, talvez seja a minha necessidade de acreditar, talvez seja o meu desejo de estar com ela.
Sei que ela não sente mais nada, mas ao mesmo tempo, e isso deve ser instinto de mãe ou princípio de loucura, eu a imagino ali abandonada; quando anoitece, tenho pesadelos imaginando que ela está tão sozinha; quando chove a minha vontade é de sair correndo e tirá-la de lá; o frio me faz desejar abraçá-la como nunca, mas tenho que engolir o fato de saber que ali está o que restou da minha filhinha.
Não me conformo, vem a depressão mais forte e eu só quero ficar deitada; dias e dias deitada esperando pra poder ficar perto dela. Sei que minha atitude é irracional, mas o que importa, tudo ficou irracional.
Pensamentos, sentimentos, religiosidade, tudo ainda está confuso; não sei se um dia vou chegar a assimilar essa perda; sei que enquanto eu puder, enquanto agüentar vou levar-lhe flores; sei que tenho vivido de sua memória; sei que a cada dia estou mais perto dela. Eu e minha filha ficaremos juntas, de uma maneira ou de outra.
Escrito por maedavivica às 08h24
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Meus olhos estão injetados; vivo como vivem os bêbados, os viciados, para quem um dia de cada vez é um tempo inesgotável.
Ando balançando num gingar engraçado, tropeçando no meu próprio espaço, beijando paredes. De um lado pro outro sem encontrar a estrada.
A visão embaçada, imagem indefinida; a língua grossa de sede; um gosto enjoado na boca, como se vomitasse tristezas.
Indigente a procura de abrigo; andarilha calejada vivendo da pobreza; fiapo de roupa; solidão inerente; encolhida na esquina como resto de gente.
Noite longa e fria é a minha vida; nem morta nem viva, desenganada.
Escrito por maedavivica às 08h08
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