Por que os Filhos Morrem?

05/04/2008

 

 

 

Tenho recebido muitos recados e sempre me emociono; são palavras de fé e carinho de pessoas que certamente eu nunca vá conhecer, mas que já não são estranhos pra mim.

 

Em um dos recados uma mãe se refere à filha com um apelido gostoso e alegre; passei a noite pensando que não existe neste mundo mais ninguém com quem eu tenha essa intimidade, essa liberdade. Bibi, minha cachucha, minha biziguinha, Vitó, Vivi, minha titozinha; palavras que a gente inventa quando não tem mais como dizer o quanto ama.

 

Em outro recado, alguém diz que se eu não consegui superar essa morte, deveria então procurar ajuda. Que tipo de ajuda pode fazer com que eu supere a morte da minha filha? Conheço mães que tomam antidepressivos, mães que vão a psiquiatras, psicólogos; mães que tem uma fé incontestável, mães espíritas que acreditam no reencontro; nenhuma delas superou, nem vai superar.

 

É impossível para quem perdeu um filho acreditar que foi melhor assim, mesmo para aquelas que acreditam em outra vida, porque enquanto isso não acontece, estamos à deriva, perdidas, confusas e emocionalmente desequilibradas. Se de lá pra cá, eles sabem como estamos vivendo e do que precisamos, daqui pra lá, nós não temos notícias deles e esse vazio nos afunda mais.

 

E quem nesse mundo pode dizer que foi melhor assim?

 



Escrito por maedavivica às 10h39
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04/04/2008

Filha querida

 

Me perco na sensação gostosa de amar você e, quando percebo, já se passaram horas, momentos mágicos em que estive ao seu lado, mas é a saudade, são as lembranças, porque eu ainda não sonhei com você, nem senti sua presença.

 

Essa semana as mães do grupo falaram sobre isso, algumas sonham com seus filhos, outras sentem a presença deles, algumas até conversam com eles.

 

Me disseram que eu não consigo essa comunicação porque ainda estou muito dolorida, mas não são doloridas todas as mães?

 

Será que existe um bloqueio em mim, uma teimosia em não acreditar? Pra sofrer mais ou pra não sofrer tanto? Não sei... sei que além dessa tela você é vinte e quatro horas de saudade e lembranças.

 

Essa doce presença que acompanha todos os meus dias, que sorri pra mim na minha memória, que fala comigo como se estivesse aqui. Me entristece demais saber que você viveu tão pouco.

 

Dizem que você está num lugar maravilhoso, que você é feliz, mas como?  Fala comigo filha, me diz alguma coisa; deixe que pelo menos eu tenha essa certeza; assim, vendo que você é feliz, eu vou encarar o fardo, vou suportar meus dias e até ser feliz vendo sua felicidade.
Escrito por maedavivica às 09h21
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03/04/2008

O que pensar sobre isso...

 

Eu que perdi minha maior alegria; perdi o maior amor que alguém pode sentir; eu que deito chorando e levanto enxugando as lágrimas, eu que cortaria meus braços, arrancaria minhas pernas, doaria sorrindo meu coração, como posso definir o que eu senti, depois do que eu li.

 

A diferença é tão monstruosa que ultrapassa a indignação e a revolta.

 

Pessoas que recebem o milagre e conseguem transformá-lo em pecado, em monstruosidade. Gente de pedra que degrada a condição humana, que suja a face da terra; pessoas que deveriam ser classificadas como vegetais.

 

É dificil entender essa vida onde crianças voam pela janela, criando asas no meio do caminho.


Escrito por maedavivica às 09h23
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02/04/2008

Foi difícil pra mim me conscientizar de que estou definitivamente sózinha; de que se não fizer algo por mim, ninguém o fará. Sei que se não pagar minhas contas elas vão vencer; se não fizer compras não vou comer, talvez esse seja o truque da vida pra me manter viva, ter que.

 

Então, aos poucos, fui me fazendo gentilezas. Comprar uma roupa bonitinha, um enfeite pra casa; um doce gostoso... Manter-me limpa me faz bem, assim como manter limpos os lençóis aonde me deito. Ter algo de que eu realmente goste, especialmente pra mim.

 

Foi um processo difícil o de admitir que gostava de alguma coisa; foi muito devagar que eu fui trocando o “ eu preciso”, para o “eu gosto”, porque tudo ainda é pra minha filha. Ter sobrevivido é ter que viver, cortar o cabelo, fazer as unhas, sair de casa; tudo isso dói; é inadmissível, porque é como estar traindo a pessoa que eu mais amei nessa vida; se ela não pode ter ou sentir, eu também não.

 

Digerir a idéia de estar viva sem ter culpa foi um momento muito duro dessa caminhada, porque pra isso tive que admitir a morte. Se fui adquirindo o hábito de me fazer pequenos agrados, foi porque não tive escolha, porque por mais que eu grite, chore, me revolte, a vida ainda está em mim.

 



Escrito por maedavivica às 09h55
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01/04/2008

Entendo perfeitamente quando Chico Buarque diz: a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu... porque eu fui me reduzindo; minha filha era um leque imenso de possíbilidades maravilhosas, hoje, eu sou a única opção.

 

A vida ficou mais árida e mais crua; sobrei sózinha no meio dessa estrada e, olhe pra onde olhar, já não consigo ver o horizonte nem encontrar meu caminho e não sinto, absolutamente mais nenhuma, vontade de procurar.

 

É como se no meio do deserto, já sem àgua ou alimento, eu simplesmente me sentasse. Chega... o sol já rasgou minha pele, não tem mais jeito de cicatrizar. Cansei de procurar por minha miragem; então, vou deixar que esse oasis se aproxime.

 

Talvez eu esteja mais perto de um riacho tranquilo, de uma grama macia; talvez possa me deitar na sombra de um lugar já conhecido; talvez eu tenha companhia e essa miragem sejam as mãos de minha filha, acariciando meu rosto.

 

 

 

 



Escrito por maedavivica às 23h18
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