Filha, nada mais me parece real; às vezes fico confusa em relação ao tempo que já passou, ontem mesmo você estava aqui, mas parece que faz um século que você foi embora.
O mundo pra mim, vai ficando cada dia mais assustador; tenho muito mais medo hoje do que já tive um dia, não da morte, tenho medo da vida.
Cada vez fica mais difícil fazer parte de um todo, quando esse todo está incompleto; quando a maior parte de tudo é mínima; quando o melhor de cada coisa ainda é pouco.
Sabe, lembro de nós duas como se fosse agora. Um pouco menos de sensatez, um pouco mais de loucura e eu vejo você entrando por esta porta.
Vivo nesse cativeiro emocional, nessa prisão perpétua. O que eu faço, meu deus, com meu destino?
Procuro enxergar alguma beleza, mas a saudade deixa tudo feio e desfigurado; eu tento, eu luto, eu faço; busco no fundo da alma a força que quase já não tenho, mas a sua falta ocupa todo o meu espaço.
Meu coração acha em tudo, pouco pra continuar vivendo.
Choro muito, minha filha, está difícil... procuro fazer com que minha oração seja o seu pão de cada dia; com que minha saudade seja a sua luz e o amor que sinto, seja o ar que você ainda respira.
Viver sem você é o maior de todos os castigos, mas eu vivo,
porque nesse trato com o divino, você cumpriu sua parte e está fazendo com que eu cumpra a minha.
Lembro de, em algum momento desta perda, ter dito: deus, essa menina é muito especial, por favor, venha pessoalmente buscar minha filhinha.
Triste destino o de nós duas, você viveu tão pouco e eu tive que viver tanto pra te ver partindo.
Escrito por maedavivica às 22h21
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