Vitoria
Ela era moleca mesmo, gostava de brincar e brincou até quase quatorze anos; de bermuda, tênis e camiseta, ela aproveitou a infância o mais que pode e eu deixei; acreditei que teria muito tempo para crescer.
Mas, algumas pessoas morrem puras.
Eu gostava quando, como toda criança, ela dizia palavras erradas: coquinha, pacocinha, eu se pentio, ni novo... já não me lembro...
Com cores e formas ela preencheu centenas de papéis; desenhou seu mundo imaginário, sua família, o ambiente onde vivia. Bilhetes... eu tenho dezenas.
Fez pose para centenas de fotos; fotografou dezenas de amigos e toda a família. Zoológico, circo, clube, festinhas, viagens, tudo o que ela pode deixar registrado.
Foi uma aluna querida de todos os professores; não era uma grande estudiosa, mas não dava muito trabalho. Foi tímida, mas fez muitos amigos.
Brincou, nadou, dançou, cantou e gostava de karatê. Tinha o sorriso doce e encantava todo mundo. Não teve muito tempo, mas não passou pela vida em vão, o que ela deixou de riquezas, não dá pra contar.
Ainda me engasgo quando lembro do que aconteceu, o mesmo soco no estômago, o mesmo susto, a mesma vontade doente de dizer: é brincadeira.
“
...Deu medo....me deu vontade de dizer não vai embora... pode o mundo acabar, pode o tempo parar, tudo acontecer que eu não vou te perder...pode o céu desabar, pode secar o mar, só não pode morrer meu amor por você” (Leandro e Leonardo)
Escrito por maedavivica às 09h19
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Eu vi num filme ou seriado, nem sei...o que um pai dizia sobre a morte de sua filha, mais ou menos assim: nada em mim ou em minha vida é igual, em nenhum aspecto, nem festas, férias, refeições, fins de semana, nada voltará a ser como era.
Perdemos com um filho, tudo à nossa volta.
Eu perdi a musica que era tão importante em minha vida, perdi o natal, a páscoa, o carnaval, festa junina, fins de semana, feriados, visitas familiares, filmes, cinemas, lojas, sabores, cheiros, perfumes, luz, cores, valores, rumos e perspectivas. Até minhas feições se modificaram, perdi o sorriso.
Perdi muito mais do que possa enumerar.
Quase não consigo conviver com os vivos; é muito mais difícil partilhar da felicidade alheia do que eu podia imaginar; fica mais evidente minha tristeza na alegria de outros jovens. Passeios, viagens, reuniões, festas, não dá... posso assimilá-los aos poucos, separadamente, não todos juntos de uma única vez.
Neste mês, faz dois anos e seis meses que minha filha foi embora, no mês que vem ela faria vinte e um anos; o que tenho senão essa deformidade emocional com a qual sobrevivo, esse aleijão em que a morte me transformou.
Vivo meu luto íntimo e particular, da única maneira que consigo ainda lidar com essa morte, em meu cantinho, sozinha, eu e minha filha; tudo mais é uma ilusão de vida; alguma coisa que vai acontecendo independente do que eu sinta ou deseje.
Escrito por maedavivica às 22h07
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