Conversar com você, minha filha, tem sido quase um delírio; conto tudo o que acontece; da minha vida, falo da vida dos outros; você sabe melhor do que eu o que está se passando por aqui.
Fico imaginando você, olhando pra mim e me comporto direitinho, nenhum palavrão ou quase nenhum, mas a vontade às vezes é de soltar o verbo; quando a dor aperta mesmo eu ainda sinta raiva.
Ando meio sem boca, sem vontade de falar e percebi que a morte nos tira o dom de consertar as coisas, então meu coração fica com a impressão de ser inútil. O que eu posso consertar agora, em que vou dar um jeito, pra quem vou entregar tanto amor? Ame a quem eu amar será sempre diferente.
Estou com frio de falta de carinho, me arrepio toda lembrando de seu abraço; imaginá-la viva é uma sensação que até agora eu desconhecia, mas quanto mais real, mais dolorido fica.
Queria muito perder a noção da realidade, penso que não haveria tanto sofrimento; me imagino em um mundo todo branco e rosa, cheio de estrelinhas; viveria em um campo aberto, florido de vitórias; flores que eu inventaria.
Sonhar é bonito, querida, mas tem seu preço; a realidade é muito mais cruel quando a enfrentamos com esse véu de aparentes mentiras, então ou eu sofro muito mais ou vou viver nessa fantasia.
O que eu faço, minha filha, enquanto estiver por aqui?
Viu, como tudo ficou complicado? Eu estava completamente despreparada para perder você. Foi tão pouco tempo pra tanto amor que eu tenho.
Não sei porque me lembrei de um versinho que sua bisavó escreveu pra mim e eu quero passar pra você:
Teu coração pequenino
Sempre me fará recordar
Linda caixinha de musica Que não para de tocar.
Escrito por maedavivica às 20h17
[]
[envie esta mensagem]
|