Sabe de uma coisa filhinha,
Aos olhos de quem me vê, estou conseguindo, mas só nós sabemos das nossas noites não dormidas; da saudade insuportável; da tentativa em vão de nos aproximarmos.
Tenho ainda as mesmas mãos que te acariciaram, os mesmos braços, mas é justamente esse corpo, ainda humano, que nos separa.
Por mais que eu tente te abraçar no espaço, tudo que eu encontro são memórias. Enlouqueço imaginando sua presença; acaricio sua face branquinha, beijo seus olhos, mas só existe o vão que você deixou.
Sou sua alma, sua sobrevida aqui na terra; a mesma aparência, a mesma fisionomia da sua carne retirada; já disse, sou sua pele. Eu sou você, filhinha, deixada pra trás.
Se nos encontrarmos um dia, talvez você me estranhe, porque eu não sou mais a pessoa que você conheceu; não sou mais a mesma mãezinha que tanto te amou; sou esse ser despedaçado que divide as horas com suas lembranças.
Não há como apagar tão cedo essas marcas deixadas pelo susto e desespero, não há como simplesmente esquecer essa dor; precisarei de tempo e ele nem sequer existe.
Penso que talvez exista sempre este espaço entre nós, essa distância; tenho medo que você já tenha outra vida; todas as suas novas experiências, todo seu conhecimento e, com certeza, toda essa luz que você possui, podem ainda nos separar.
Você seguiu sem mim; não teve escolha.
Mas, se conversávamos sobre tudo, dividíamos todas as sensações e conhecimentos, porque você passou por esta experiência tão terrível, sozinha? Porque eu não estava junto de você?
Não foi justo; se nascemos no mesmo instante, porque morrermos separadas?
Escrito por maedavivica às 09h13
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