“Eu estava destinada a ser sua mãe e fiz o melhor que pude”. (do filme Forrest Gump)
Era meu caminho seguir sua trilha, acompanhar o pouco de vida que lhe restava pra ver cumprida sua tarefa. Hoje, sem vínculos terrenos, você voa livremente e me espera.
Não há mágoas ou lembranças ruins; há a tristeza da saudade, mas a certeza da luz; era meu destino sobreviver à sua partida e ficar pra cumprir minha jornada.
Eu te dei a vida, minha filha, mas não tive como segurá-la; a decisão nunca foi minha.
Acredito que, de alguma forma, sou agradecida por ter lhe dado essa oportunidade; minha cabeça é muito confusa quando se trata do meu coração, mas a chance de se tornar iluminada, fui eu, sua mãe, quem lhe deu.
Meu anjo, eu tenho lhe dado também minha vida; difícil, difícil, difícil... tem me custado muito caro, mas é por nós que eu continuo, dia a dia, minuto por minuto, porque minha única intenção é estar à sua altura.
Já disse outras vezes que não quero chegar ajoelhada.
Quando um dia meus olhos se abrirem, verei os seus, apertadinhos naquele sorriso meigo e simpático; vou querer o abraço mais apertado, o beijo mais longo, o maior chamego; vou querer que o tempo pare com minha chegada, por que eu ficar agarradinha em você por muito, muito tempo.
Escrito por maedavivica às 09h08
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Julho, mês infernal... esse ano parece que está sendo mais cruel ou eu não me lembro. Se eu for mesmo me confessar, direi que carrego comigo a culpa e a vergonha de não ter morrido.
Cada vez que eu respiro lembro que minha filha não o faz.
A sensação é de atordoamento; alguma coisa que eu não vi ou não fiz; o que eu não senti ou não conferi. Lá trás ficou o desespero e aqui a incapacidade de aceitar.
O sentimento é de estar suspenso no ar e no tempo; e agora... e daqui pra frente... porque faz um século que ontem ela partiu.
Tenho tido pequenas visões de um sorriso tão amado, sensações de uma presença querida, não sei se são lembranças ou percepções, mas não consigo encará-la de frente por causa da maldita culpa que nunca me abandonou.
Viu... se dou um passo adiante, lá se foram dez pra trás.
Qualquer sensação de alegria me causa uma tristeza profunda; a de não compartilhar, de não poder saboreá-la juntas.
Não tê-la aqui é cruel e injusto, chega a ser imoral; odeio o fato dela estar em algum lugar distante dos meus braços; que outros braços a abraçam, que outros lábios a beijam, quem senta ao seu lado e conversa com ela?
Que papel tenho hoje em sua vida? O que eu faço por aqui?
Escrito por maedavivica às 08h47
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Quando estou muito deprimida, de uma certa maneira o tempo passa mais depressa, talvez porque nada tenha importância à minha volta; mas tem alguns dias em que a inquietação toma conta de mim.
Esses dias são estranhamente piores; a saudade não me deixa nunca, mas a agitação, sem ter o que fazer, nem ter pra onde ir, faz com que os dias e as noites não passem.
É quando eu mais penso e mais sinto. A dor me modificou muito, mas estou longe de ser perfeita e não pretendo ser santa; meus demônios aparecem e eu fico com pena de mim e magoada com os outros.
Admito que sinto raiva de quem está vivo, que pergunto porque tinha que ser a minha filha; acredito que não fazem o bastante por mim e me sinto abandonada; quero quebrar, sujar, rasgar tudo à minha volta; quero ser outra pessoa e estar em outro lugar.
São momentos pesados que só a lembrança de minha filha suaviza; seu rostinho lindo, seu sorriso suave, seus gestos tranqüilos; quando olho pra ela os demônios desaparecem dando lugar a anjos coloridos.
Penso que não tem mais jeito, que já aconteceu e por mais que eu me revolte, ela não vai voltar. Seria um pecado à sua memória passar pelo que me resta maldizendo tudo. Não quero embrutecer sua imagem nem rodeá-la de demônios.
Quero que tudo seja bonito à minha volta para que ela se sinta acolhida e amada quando vier me visitar .
Escrito por maedavivica às 09h03
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