O que fazer se só me restou lembrar; são sempre as mesmas lembranças, incansavelmente lembradas; todas as cenas repetidas mil vezes, da gestação à morte.
Do primeiro ao ultimo sorriso, das primeiras as ultimas palavras; lembro de um gesto de amor lançando um beijo no ar; tento me lembrar de seus últimos minutos, mas eu não estava lá, estava perdida em algum canto da escuridão e do medo.
A vida vem tomando decisões por mim; será que eu deixei?
Estou abatida e essa é a palavra; fui abatida como gado, alvo da morte; desperdiçando vida nesse sono profundo; presa nessa escuridão de ausência. Não consigo despertar porque tenho lembranças e, quantas vezes quis, covardemente, ter me esquecido.
Se ao menos me explicassem, mas que explicação pode ter a morte, por mais que a disfarcem, que a cubram de flores e lhe projetem um futuro maravilhoso, morte é morte, e não me consola.
O agora, tenho que viver sem minha filha, o hoje é somente um filme que se repete em minha memória.
Escrito por maedavivica às 08h48
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É estranho como de repente comecei a pensar no tempo, dois anos e sete meses, dois anos e oito meses, quase três anos... e o que é diferente em cada dia?
Naquela noite se instalou em mim a dor, a tristeza, a saudade que apenas começava; instalou-se em mim a própria noite, então o que pode ser diferente desde aquele dia?
Talvez seja o amanhecer, me levantar todos os dias; fico na cama esperando que isso não aconteça, mas a claridade entra pela janela; desejo um café e um cigarro e então sei que ainda estou viva.
Que longa noite, essa a minha!
O que desespera é saber que nada muda; não há o que me tire desse tormento, dessa manta dolorida que se tornou minha pele; a morte é o vazio de todas as coisas.
É o que ficou por ser terminado, o que não chegou a ser dito; é o silencio de todos os espaços, onde estavam os planos, os sonhos e os desejos.
Escrito por maedavivica às 22h11
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