O pijama ainda tinha desenho de ursinhos, mas em cima da escrivaninha ficaram os formulários para a carta de motorista. Morrer aos dezoito anos é muita maldade, significa não ter quase vivido.
Cartas do namorado, livros da faculdade e bichinhos de pelúcia; minha filha não chegou a crescer realmente, estava naquela transição entre menina e mulher.
Posso imaginar, mas nunca vou saber como ela estaria hoje.
Meu mundo vai diminuindo a cada dia, fica difícil saber o que tem importância, medir e pesar todas as coisas; é relevante saber de política? Nem sei o que aconteceu nas olimpíadas.
Existe ainda em mim um cantinho obscuro, desconhecido, que me faz pensar nas reações que tive e que tenho; nunca vou entender porque tive tanta pressa em me desfazer de tudo.
Imagino que meu coração nunca quis acreditar. Eu queria que tudo passasse, passasse; eu sabia que ia morrer. Me arrependo das decisões que tomei, mesmo porque, sobreviver me machuca e me envergonha.
Essa doença chamada morte dos que ficam, mata tanto quanto a própria morte, mas de maneira lenta e dolorida; é como estar sendo torturada todos os dias.
Penitência, carma, missão ou destino? O que sei, é que dói. Dói não ter sua companhia, não ter seu futuro pela frente; dói não ter comigo o grande amor da minha vida; dói profundamente pensar que minha filha não tem mais vida.
Todas as outras pessoas seguiram em frente realizando seus sonhos; esqueço de outras mortes porque me parece que só ela não está aqui e que direito a vida tinha de levá-la tão cedo? Mais três meses e ela estaria formada, provavelmente namorando, dirigindo, viajando...
Pode ser que eu ainda sinta algum tipo de amor pelas pessoas; o grande e mais profundo amor está nas minhas lembranças; quem sabe eu ainda saiba amar, mas não mais da mesma maneira e com a mesma intensidade.
Escrito por maedavivica às 11h03
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