Filha querida
Tem horas em que eu não penso em você, fico alheia a tudo; acho que é quando meu espírito descansa. Perco o som do universo e aumenta ainda mais a distância que existe entre o céu e a terra, mas alguma coisa sempre me traz de volta, sempre uma lembrança...
Eu ia te encontrar todas as noites, às vezes estava tão cansada depois de um dia inteiro na cozinha, mas não reclamava porque era uma alegria ver você chegando; de longe eu via seu rostinho e você estava sempre sorrindo; se destacava de todos os outros como se só existisse você.
Às vezes o ônibus se atrasava e meu coração disparava de ansiedade; cinco minutos, dez minutos e depois disso eu começava ficar nervosa; era quando eu percebia o tamanho do mundo; parece que ele é gigantesco quando se está longe do filho.
A impressão do redor, uma sensação que não percebemos quando estamos no ninho. Em casa, o mundo volta a ser pequeno. Nosso mundo, pequeno e gostoso. Hoje, perdi a noção de tamanho; nós éramos um todo e pertencíamos a um lugar.
De repente....ainda acordo e digo, não é possível.
Desde julho, quando você completaria vinte e um anos, eu tenho tido fortes recaídas; não sei porque, não é diferente dos vinte ou dezenove, é só mais dolorido; não chegar nem à maturidade... Sabe, minha bonequinha, a saudade só aumenta, porque é uma saudade do que se teve e do que nunca se vai ter.
Falam muito nas cinco fases do luto e cada um explica de um jeito: Choque, Negação, Aceitação, Dar sentido à perda, Fim do luto; em outro site encontrei: Choque e negação, Raiva, Barganha, Depressão, Aceitação.
Fim do luto? Aceitação?
Tudo muito fácil de entender, mas difícil de aceitar; quem perde um filho sabe que só existe o horror, o desespero, a inconformidade e a saudade e todas essas fases vão ficar para sempre.
Escrito por maedavivica às 08h49
[]
[envie esta mensagem]
|