Os lírios nunca mais nasceram em nosso vaso, eles estavam tão lindos que seu tio pensou que fossem artificiais, depois que você nos deixou, nenhum lírio teve vontade de nascer e a vida ficou como no inverno, às vezes o sol aparece, mas sempre frio e desbotado.
Nunca mais serei verão.
Quando eu vejo, até mesmo em propagandas, meninas experimentando jeans, escolhendo cores de esmaltes, rindo e conversando, me vem uma tristeza enorme, uma saudade da nossa rotina; nunca, ver alguém depilando as pernas ou tirando as sombrancelhas, foi tão triste.
O simples fato de alguém sorrir me faz pensar, porque ela e não você? Sei que é horrível pensar dessa maneira, sei que você não deve ficar contente com isso, mas perder você me transformou nesse monstro que deseja que tivesse acontecido com outra; sinto tanta dor que me esqueço de ser uma boa pessoa. Desculpe, minha filha.
Não sei se havia uma escolha, se já estava destinado, não estou preparada, por mais que eu insista, a desvendar mistérios; fico, desde o principio, conectada a você, deixando aberto esse canal pra nós duas, mas isso é o máximo que consigo, porque não suporto pensar em você como sendo um espírito.
Não suporto saber que você tem outra vida, está em outra companhia, sinto ciúme de quem está convivendo com você, porque mesmo que eu vá te encontrar, esse tempo não volta, está perdido e eu estou perdida aqui sem você.
Você vai ser sempre minha filha, eu vou ser sempre sua mãe, mas estão acontecendo duas vidas ao mesmo tempo e nas duas estamos separadas.
Escrito por maedavivica às 19h58
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Disse uma vez que a solidão tem diversas formas, mas tem diversos sons também; ruídos normais que eu não percebia quando minha filha estava aqui.
A madeira estala em meu armário, em minha cabeceira e no criado mudo, o relógio tictaca o tempo no som do escuro.
A água borbulha no café que eu faço, a fritura canta, a panela de pressão chia no som do espaço.
O tiritar de dentes com frio, o coração pulsa no ouvido, o estômago ronca no som do vazio.
O ventilador tem seu próprio ruído, a porta range, a tv fala o som do desconhecido.
O roçar de tecidos, o gotejar da água, a cama que geme no som do sem sentido.
Um inseto bate as asas, o vento assobia, meu coração sussurra no som do dia a dia.
Em meio ao insignificante, um som é constante, o som da saudade da minha filha; sinto de maneira muito intensa, uma respiração que não é minha, um olhar que vem de fora no som de uma presença.
Escrito por maedavivica às 08h01
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