Acordo, olho o relógio e são cinco e quinze da manhã, lembro que sempre detestei acordar cedo; penso tanto em tantas coisas que parece que muitas horas se passaram; olho o relógio novamente e são vinte para as seis.
Quero sair um pouco de casa, mas o prazer de ver roupas e sapatos nas vitrines eu perdi; quem sabe a farmácia, sempre precisamos de remédios, mas não, tenho mais do que o suficiente; a padaria é bem longe pra ir buscar só dois pãezinhos e as poucas vezes em que fui até lá, pra compensar a viagem, comprei muito mais do que precisava e, como são perecíveis, comi mais do que deveria.
Vou telefonar pra alguém, mas todos os alguéns que eu conheço estão trabalhando; não vou amolar ninguém em seu local de trabalho, deixo pra telefonar à noite e à noite acho que todos estão felizes, jantando, conversando, descansando com suas famílias; não vou impor a eles a minha dor.
Mães do grupo... às vezes fico cansada de só ver tristezas, a cada dia mais mães enlutadas aparecem no grupo e todas com histórias horríveis de perdas inconsoláveis. Sou solidária a essa dor conjunta, mas o que dizer a elas se eu mesma não me conformei.
Profissão eu não tenho; volta então a idéia do voluntariado, mas percebo que ainda não consegui encontrar o fio da meada; esse é um grande problema, o recomeçar; a vida se tornou pra mim um constante agora e agora não é ainda a hora de recomeçar; não sei onde buscar apoio, de onde tirar mais forças.
Você pode achar que sabe de tudo, que tem o controle, que pensa e age como deseja e que faz o que quer, mas a vida te dá uma pernada, te joga no chão e não te ensina a levantar.
Sou só um bebê nessa dor e não aprendi ainda como engatinhar. São seis e quarenta e cinco...
Escrito por maedavivica às 08h29
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Minha menina
Ontem foi meu aniversário e eu fiquei pensando em quantos mais terei que enfrentar; quantas datas tão significativas pra nós terei que passar sozinha; falta o meu outro lado; falta a vontade que eu já tive de ser feliz; logo depois é o natal e eu não consigo imaginar como terei vivido três anos sem você; é muito peso, muito pesar; três anos... onde estou que não os vivi; como tudo tem passado por mim sem que eu perceba.
O que mudou nesse tempo foi a maneira de sofrer, só isso; se o choque passou, ficou o choque de só poder lembrar; nada mais vem de você, nada se criou, nada se modificou, nada mais aconteceu; tenho que viver com o que você era e aí descubro onde estou, no passado... e, por melhor que sejam as lembranças, queria poder descobrir em você novidades.
Será que você já usaria maquiagem? Será que teria cortado os cabelos? Ainda gostaria do azul ou teriam mudado os seus gostos? Você estava tão feliz por ter sua conta no banco, mas nunca assinou o primeiro cheque. Queria poder te levar ao dentista, queria simplesmente poder te acompanhar ao cabeleireiro; queria poder discutir com você, reclamar, brigar, gritar; qualquer coisa filha, menos esse silêncio, essa falta que completa todos os espaços.
... é isso filha, hoje, queria poder gritar essa dor que não acaba.
Nossa vida passou muito depressa e agora meus dias se arrastam; amanhece e anoitece, amanhece e anoitece e eu penso em você, sempre, em cada detalhe, no que você foi, em quem você... era...
Escrito por maedavivica às 11h00
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