A vida não é uma grande brincadeira; alguns parecem vir pra cá de férias, outros, aparentemente para abrir caminhos.
Infelizmente abri caminho para a experiência mais dolorosa dessa vida, pra mim e pra minha família. Para os amigos, todos jovens, foi um susto que eles desconheciam.
Penso que se existe mesmo a reencarnação, essa é minha última passagem por aqui, porque não há aprendizado maior nem mais sofrido.
Se eu tivesse outro filho, diria a ele para não ter medo da vida; pra encarar o futuro como uma expectativa ambiciosa, não como um problema a ser resolvido.
Ansiedades...diria pra não tê-las, porque em nada muda o que está pré-determinado. Diria a ele que deixasse fluir todos os seus sentimentos e encarasse o dia a dia de forma firme mas suave.
Que não levasse pra cama problemas de simples solução e que não criasse outros tantos sem necessidade. Que não investisse na derrota nem desse nada por irrecuperável.
Diria para vivenciar cada bom momento como quem saboreia o doce e deixar que se evaporem os maus tempos porque inevitavelmente eles vão aparecer, mas como tudo na vida, passam.
Se eu tivesse outro filho estaria cem por cento com ele porque é terrivelmente difícil a situação dos filhos que ficaram.
Eu não pude ter outros filhos, minha experiência nesse planeta parece que tinha que ser completa, a maior dor, a mais profunda, a mais longa.
É lento meu aprendizado, ele é elaborado a cada segundo na procura do entendimento, da aceitação; o que eu sinto é pena de ter que passar, pelo menos consciente, por esta terra, com tão pouco tempo ao lado da pessoa mais importante da minha vida.
Tenho certeza que minha filha merecia muito mais do que teve.
Escrito por maedavivica às 11h03
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Encontrei essa foto na casa de minha irmã, fiquei pensando em como distribuímos coisas de nossos filhos na certeza de que serão substituídas indefinidamente por outras.
Se eu soubesse...
Na minha cabeça estão, o primeiro vestidinho, o primeiro sapatinho, aquela minúscula sandalhinha de tiras entre os dedinhos; são pijaminhas, blusinhas e shortinhos que dançam em minha frente.
Minha memória não me traiu ainda e eu vejo tudo; numa caixa estão alguns dos brinquedos, outros estão espalhados; são legos montados, o pequeno zoológico, o posto de gasolina com os carrinhos, a mesinha, a cadeirinha, lápis de cor, livrinhos.
Estou cercada por cadernos, fichários, estojos e mochilas; uniforme da escola, roupa de ginástica, maiô da natação, quimono do caratê. A toalhinha pendurada, o pequeno roupão, a touca de banho.
Agora ao meu lado estão, os perfumes, batons e brilhos labiais; brincos e anéis; correntinhas com cruzes e corações; jeans e camisetas, o primeiro salto alto, a bota e o tênis.
Em torno de mim estão todas as fotos; os amigos, o namorado, a família; o porta cds, os dvds, presentinhos recebidos, o computador sempre ligado, o tão desejado celular.
Depois mais nada...
Na mesa ficaram, folhas do ultimo trabalho pra faculdade, formulários para carteira de motorista, bilhetinhos, a imagem de Nossa Senhora de Fátima.
Hoje mais do que nunca eu quero o silêncio; é uma saudade muda a que eu sinto.
Escrito por maedavivica às 10h36
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