Até hoje não encontrei nenhum calço pra sair desse buraco, talvez por que não tenha motivos. Perder um filho é insuportável, perder o único filho é mortal.
De uma certa maneira, ficar no buraco é cômodo, me isola de outras dores, me descompromete de enfrentar a vida, então... me adaptei ao meu buraco.
Os poucos olhares que lanço pra fora me mostram que não vale a pena; saio dele pra conviver um pouco com a família, com alguns amigos mas, como um bicho, volto correndo pro buraco.
Nunca consegui voltar a viver.
A exposição aos outros ainda é difícil, parece que eles estão se perguntando: será que ela está bem? será que eu devo falar? será que ela vai se magoar? e se eu rir, o que ela vai pensar?
As pessoas evitam “ser feliz” perto de mim, não emitem nenhum sinal de festa ou alegria; tornou-se uma convivência triste e eu procuro não impor minha presença a eles.
Às vezes sinto um olhar de pena dirigido a mim; é como se perguntassem: como ela está conseguindo?
Não estou... eis o motivo do buraco, mas não tenho opção; a morte terá que vir naturalmente até mim; eu já a procurei e me senti miserável.
Hoje, procuro construir paredes onde possa me segurar; são pouquíssimas coisas e poucas pessoas que me fazem sair desse buraco, afinal eu o tornei habitável.
Trago luz pra dentro dele, harmonia, o mínimo de paz que eu consiga; danço enfim, conforme a musica. Desde de sempre eu me perguntei: o que a vida está me dando? É com isso que eu tenho que lutar.
E lutei; lutei com sentimentos, com decisões certas ou erradas; lutei por caminhos diversos e ideais; lutei pra ser o que eu era e lutei com as consequências.
Então minha filha veio e clareou todas as minhas idéias, encontrei o caminho para melhores escolhas e pra decisões mais pensadas.
Mas, a vida me deu a morte e me colocou nesse buraco; um cansaço infinito de tantas lutas tomou conta de mim; sentir, pensar, decidir, lutar...
Ah, eu já não posso; tô tão cansada que respirar machuca; hoje só quero o buraco.
Escrito por maedavivica às 08h02
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