Acho que hoje tenho mais consciência da solidão; a dor se alojou no fundo da alma e eu me acostumei a senti-la.
Tenho medo de perder o controle porque sei que será bem pior; passo o dia dizendo a mim mesma pra ter calma, pra ter paciência que um dia acaba.
Calma Célia, calma, é um dia a menos pra viver.
Mantenho o equilíbrio recordando, procurando ter pequenas rotinas que me ajudam a passar pelas vinte e quatro horas; quando alguma coisa quebra essa rotina eu fico perdida sem saber se vou ou não vou, se quero ou não quero.
Fim de ano é pior ainda; parece que as pessoas ficam loucas, tudo pára de uma certa forma e começa de outra; piora o trânsito, aumenta o barulho e as buzinas não param.
Mesmo imperceptível, fica no ar aquela sensação de um novo ano; o recomeço, as listas de promessas a serem cumpridas, coisas por terminar; a impressão de estar se renovando.
Eu penso que tenho que me reinventar e renovar todos os dias; que minha "lista" começa na morte e como viver até lá; não é só desilusão desta vida, é saudade; uma saudade doída e comprida do que não se pode mudar.
Eu vivo num inferno sem respostas e penso muito em quem tem filhos mas não percebe; passa o tempo se preocupando em criticar e desamar, quando deveria aproveitar cada segundo para criar lembranças.
Hoje, sinto desesperadamente que deveria ter vivido mais alerta, ter prestado mais atenção e estar mais presente; por displicência, por ignorância, por acreditar que somos imortais, deixei passar momentos que não voltam mais.
Tudo, exatamente tudo que se deixa pra depois, se perde no tempo; a memória falha, as lembranças se embaralham; só aquele instante em que eu amei vai resistir, porque mesmo que eu acabe minha vida com Alzheimer, sem recordação nenhuma dessa vida, vou saber, com absoluta certeza, que amei demais um dia.
Escrito por maedavivica às 07h58
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