O primeiro dia de um novo ano... Fico pensando no significado e na importância que isso tem; lembro de ficarmos imaginando o que estaríamos fazendo em 2010, quanto dos nossos projetos e sonhos estariam realizados, já estamos em 2009 e eu estou sozinha.
Nada, nada filha, estaremos fazendo em 2010.
Amanheceu garoando, com ar de tristeza; sempre gostei de chuva na madrugada, se possível, batendo no telhado, mas não da garoa que me deprimia; hoje o dia combina comigo; como dizíamos, eu e você, “dias chuviscosos”.
Dias de arrumar armários e gavetas; separar o que já não servia, o que não se queria; reler papeizinhos guardados, lembretes e recadinhos.
Dias preguiçosos com gosto de cama; uma saudade leve e dolorida. É verdade, tínhamos saudade de nós mesmas, de tempos passados e, em dias como este, ficávamos olhando fotos e relembrando momentos.
Sabe filha, saudade não tem definição, mas pra mim saudade é cada segundo de lembrança; como um enorme e interminável novelo que vai se desenrolando.
Nunca, nunca vou aceitar... e como poderia se vivo exclusivamente desses momentos; é uma vida em outra vida; somos as mesmas, não mudamos além da aparência; quem sabe estamos finalmente evoluindo.
Onde você está filha? Talvez arrumando gavetas de sua nova vida, vendo a nós como fotos antigas, mas preciso pensar que nossas almas estejam estagnadas, adormecidas e que só despertem com a minha chegada para que possamos recomeçar ao mesmo tempo.
Hoje em dias chuviscosos, quando o cansaço me abate, eu deito em nossa cama e revivo cada instante.
Escrito por maedavivica às 11h16
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Estou me vinculando com a desvida; nunca fui de guardar muitas coisas; doei a grande maioria depois que a Vi se foi; nesse final de ano decidi me desfazer de um pouco mais; materialmente falando, estou praticamente nua.
Hoje, mais do que nunca sei que não levamos nada dessa vida, talvez nem lembranças.
É verdade que às vezes, no auge da angústia, eu saio pelas ruas sem propósito e compro o desnecessário; dez minutos depois eu já estou pensando: quem será que gostaria disso, pra quem eu vou dar?
Nada, absolutamente nada cria raiz aqui; se já não era materialista, hoje sou desprovida desse sentimento; como já disse, gosto de manter minha casa arrumadinha, já não tão limpa, mas arrumadinha, porque na verdade, sinto com todo o meu coração que essa é a nossa casa, minha e da Vi.
Não importa se ela é invisível aos meus olhos, eu a vejo de dentro pra fora e, mesmo quando a saudade chega ao limite humano e eu tenho vontade de arrancar a pele; mesmo quando a dor é tão forte que eu preciso gritar como louca, ainda assim eu me controlo e espero.
Se antes eu tinha o futuro pela frente, hoje tenho a morte que há de ser melhor do que essa vida; aqui tive tantos sofrimentos... não mais do que outras pessoas, penso sim em crianças doentes, idosos abandonados, me importo sim com o sofrimento alheio, não sou a grande vítima dessa história, mas fui me interiorizando, me embutindo no meu próprio mundo.
Se viemos mesmo aprender alguma coisa, aprendi que a dor é sufocável, que a saudade é imensurável e que todos as coisas belas estão hoje dentro de mim; trouxe o por do sol, areias douradas, dunas gigantes, neve, florestas, paisagens; trouxe o riso, mãos dadas, coração batendo, alegria descontrolada; tenho em mim todos os sons, todas as cores; emoções de todas as formas e um grande universo.
Se posso ainda sentir o calor de um sol a que não me exponho, posso sem dúvida amar a tudo e a todos; simplesmente, intensamente, mas de dentro pra fora.
Escrito por maedavivica às 09h58
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