Além de moça do banco, melhor vizinha e moça da loja, às vezes a Vi era motorista de táxi; uma cadeira atrás da outra e lá íamos nós:
- Pá onde vai moça?
- Ao shopping, por favor.
Então ela imitava o barulho do motor e dirigia o espaço.
- Ponto, chegô.
Eu descia da cadeira, ia até o quarto, voltava e fazia sinal para o táxi. Muitas vezes seguidas....
De vez em quando ela esticava o bracinho para mostrar que ia virar para a esquerda ou para a direita, embora não soubesse a diferença.
Brincamos muito juntas.
Conforme ia crescendo, o armário que era sua casa, sua loja ou o banco, ia ficando pequeno e a escrivaninha passou a ser seu lugar favorito.
Eu era a aluna, ela a professora, da mesma forma que eu tinha sido a freguesa, a cliente, a passageira e sua melhor vizinha.
Fui sua companheira nessas viagens pela imaginação; fomos cantoras, atoras, médicas, super heróis, amigas.
Quantas horas da minha vida passei à disposição dela é difícil contar; acredito que foram todas porque, mesmo quando eu não estava presente eu estava com ela; trabalhava por ela e saia de casa querendo voltar.
Se são essas lembranças que me fazem viver, são elas também que me matam de saudade; que me fazem pensar que, de qualquer forma, não conseguimos.
É como um livro que não passou do segundo capítulo, um filme que ficou pela metade; uma história sem final.
Fico pensando em como teria sido se tivéssemos tido tempo pra mais lembranças, se eu pudesse estar agora contando novas histórias.
Se tivéssemos tido o direito simplesmente de nos telefonarmos, almoçarmos juntas para contar as novidades; se pudéssemos nos confiar pequenos segredos; se todas essas lembranças fossem contadas por nós mesmas.
Se nesse último natal eu estivesse brava, resmungando de ter que fazer tudo sozinha, a ceia, sobremesas, os presentes e arrumar a casa pra receber minha filha, meu genro e todos os netos.
E, no meio daquela bagunça toda de papeis espalhados, louças sujas, forno quente, choro e gritinhos de crianças cansadas eu percebesse que não queria, de maneira alguma, estar em outro lugar.
Escrito por maedavivica às 09h33
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