Diante de qualquer tipo de dor, por mais forte que seja, o inconsciente nos diz: vai passar. Procuramos um analgésico e seguimos em frente por que sabemos que “vai passar”.
A morte de um filho nos traz a certeza de que não passa nunca, então o consciente, o inconsciente, todo o nosso corpo sente essa dor como sendo definitiva; aos sobreviventes resta saber “como sofrer”.
Cada um busca seu próprio analgésico; se apega a deus, busca espíritos, finge que não aconteceu, recorda...faz qualquer coisa pra entender, porque entendendo a gente aceita.
Racionalmente aceitamos a explicação médica, científica ou religiosa, mas emocionalmente somos incapazes; podemos fingir, podemos nos enganar, mas aceitar, nunca.
É assim que eu me sinto mais desesperada, porque para o meu coração não há explicação nenhuma; acredito que devagar vamos apenas nos adaptando à ferida e convivendo com ela.
Tem dias em que esse “botão” está desativado e eu fico realmente infernada, sinto raiva, sinto ódio até, penso o que não devia, quero fazer o que não posso.
Não sou sequer o náufrago esperançado.
Fico pensando que de tudo que eu fiz, que eu aprendi, que eu vivi, o desejo de morte foi o que restou. É insano.
Como insana ficou minha vida; dizer que estou apenas passando o tempo me torna menor ainda, mas não consigo até hoje reagir de outra forma.
Construir, refazer, buscar, crescer, são palavras que eu já não entendo, porque em tudo tem uma grande falta; se eu conseguisse pelo menos definir quem sou... Não há como voltar ao que fui e pensar da mesma maneira; não há como reagir a impulsos tão dolorosos.
O que vale então a pena? Respirar? Hoje sou, sem dúvida, o ser mais morto desta terra e o que eu vou deixar além de lembrança e dor? Porque tudo “do antes” foi apagado; não há registro de quem fui.
Escrito por maedavivica às 10h10
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