Mais de três anos de ausência e a sensação de presença ainda é muito forte. Se é segunda porque é segunda e, ao contrário da maioria das pessoas, a Vi adora as segundas feiras. Se é domingo porque é domingo; se está chovendo porque está chovendo; se está frio porque está frio e a Vi adorava o frio. Se é de dia, se é de noite, porque a Vi adorava o dia e adorava a noite. A Vi adorava a vida. Tinha uma alegria infantil e inocente de quem não havia ainda sofrido o bastante pra amadurecer. Via a vida da maneira mais simples de ser vista. Se meus pais estão felizes porque é felicidade e a Vi adorava os avós; se é aniversário de um dos meus irmãos porque é aniversário e a Vi adorava os tios; se são realizações dos meus sobrinhos porque são realizações e a Vi adorava os primos. Se reunia os amigos pra brincar, estudar ou conversar; se tocava violão, se trocava figurinhas; se jogava bola ou fazia caratê, porque a Vi adora violão, figurinhas e caratê; a Vi adora os amigos. A Vi adorava a vida. Quando a felicidade é feita de pequeninas coisas, tudo tem muita importância. Eu não me lembro só do dia em que a Vi entrou na faculdade, lembro da alegria que ela sentia ao ir pra escola todos os dias; lembro de todos os almoços e jantares; de todos os lanches; de cada bolo que fiz pra ela e a Vi adorava comer bolo saído do forno. Porque a Vi simplesmente adorava a vida. Mas a Vi tinha medo de bichos, espíritos e da morte. Eu a protegi dos bichos, a protegi dos espíritos e não percebi a morte.
Escrito por maedavivica às 10h57
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