Depois de tanto tempo só restaram duas perguntas: porque minha filha morreu? Porque eu vivi? Há uma lacuna nesse espaço de tempo; na insatisfação do inexistente, na inquietação do vago. A saudade que ao mesmo tempo pode ser uma brisa suave pode se tornar um furacão devastador. Se lembrar é doce, é também o fel da vida. Minha filha, mesmo que ocupe outro espaço, que vista outros trajes e contemple outras paisagens, ainda assim é minha filha. Não aceito essa ausência. Se não posso tê-la aqui, quero estar lá com ela. O tempo está passando e eu estou perdendo momentos preciosos de sua vida. Alguma coisa ficou perdida no espaço, por isso a sensação de não vida, de estar suspensa no ar aguardando que alguma coisa aconteça, mas o que, senão a morte e o reencontro. Não sei aonde é o “lá”, em que dimensão nos encontramos depois da morte; muitas vezes acho um absurdo viver e viver, ir e voltar, nessa eternidade. Se a morte é uma realidade a todo ser humano, ter outra vida se torna cruel, porque haverá outra morte e outra vida e mais morte, sucessivamente. Quando chega o fim. Me questiono o tempo todo, acho que estou enlouquecendo nesse vai e vem do universo religioso. Minha filha terá sempre a mesma aparência? Eu vou chegar lá acabada desse jeito, velha, barriguda, desdentada? Não teremos mais um corpo? Então a quem vou abraçar? É conveniente pensar que tudo se resolve com a morte, que tudo passa a ser a felicidade inexplicável, então porque temos que passar por este inferno? Esse extremo entre alegria e tristeza é que é questionável. Já nascemos indo de encontro à morte e nesse espaço de tempo, lutamos, sofremos, acordamos todos os dias repletos de obrigações e compromissos e, eventualmente, somos felizes. Tô muito ignorante hoje, não quero mais escrever.
Escrito por maedavivica às 10h33
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