Eu não tenho descanso nunca, não tem um dia, uma hora ou um minuto em que minha cabeça não esteja a mil, meu coração despedaçado. Não existe o repouso de problemas resolvidos ou de atitudes tomadas, tudo é dor, tudo é saudade, então qualquer fiapo é manta. É acumulativo, depois que perdemos um filho acreditamos que não sentimos mais nada, não é verdade, só sentimos diferente. Ao mesmo tempo em que problemas que “eu tirava de letra”, como se diz, hoje são gigantescos, outros são apenas probleminhas. É difícil saber como vamos reagir, depende do dia, depende da hora. Que somos emocionalmente mutiladas e desequilibradas, não tenho dúvida. Como querer que tudo seja normal? Então, às vezes alguém nos diz uma palavra que nos magoa profundamente e precisamos nos perguntar de que maneira e com que intenção essa pessoa nos disse isso. Estar fragilizada às vezes nos torna cruéis; a minha luta interna é: “eu não tenho o direito” ou “o que me importa”. Fico pensando que a vida é um engolir de sapos mesmo. Obedecemos aos pais, professores, patrões, maridos; engolimos desaforos de vizinhos, médicos de ambulatórios, consultórios lotados com horas de atraso, vendedores mal humorados, caixas de banco estressados; enfrentamos pessoas raivosas no trânsito, nas ruas, nos supermercados; se você sorri pra alguém logo perguntam: o que foi? Nunca viu... e vamos engolindo todos os sapos. A personalidade da gente vai se moldando e modificando e nos tornamos bons seres humanos ou bons engolidores de sapos. Essa é a regra para convivermos pacifica e educadamente neste mundo. Mas um dia os sapos voltam e vamos regurgitá-los todos. Não sei dizer se sou passiva, paciente, seja o que for, ou se estou só esperando a vez de vomitar no mundo.
Escrito por maedavivica às 12h25
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