A saudade aumenta a cada dia; hoje faz exatamente três anos e três meses que estou sem minha filha; porque contamos o tempo? Sinto saudade da pele, do toque; eu passava os dedos levemente em suas costas e sentia seu arrepio, ela dizia: que gostoso mãe. Saudade de ficar de mãos dadas assistindo um filme, dos seus pés enroscados nos meus quando ela se deitava em minha cama. Sinto saudade até de esbarrar nela sem querer no caminho para a sala ou para cozinha. Sinto saudade da saudade que eu sentia quando ela não estava em casa. Acho que não contamos o tempo, apenas o sentimos o tempo todo. As recordações são tão constantes que parece que as estamos vivendo. Outro dia estava fazendo uma escultura e procurava definir um músculo quando me lembrei: A Vi gostava mais de brincadeiras de meninos do que de meninas e queria se forte, então abaixava e levantava numa espécie de ginástica; um, dois, três, quatro, um dois, três, quatro. Então erguia o bracinho e dizia: mãe, olha o meu “muculo”. O “muculinho” da minha filha naquele bracinho gorducho de menina. Na verdade eu sinto vinte e um anos de saudade, porque tenho saudade desde o dia em que me mostraram seu rostinho rosado, suas bochechas cheinhas. Do dia em que cheguei em casa e ela estava dando os primeiras passinhos; dos seus primeiros tombos; do bico que fazia quando estava zangada. Sentir saudade é ter tido, é ter feito, é ter sentido. Eu sabia que sentiria essas saudades, mas acreditava que estaria velhinha, rodeada de fotos antigas, contando histórias de nossa vida. Nunca, jamais pensei que nossa vida acabasse assim naquele dia. Que eu deixaria de ter, enquanto viver, tantas outras saudades.
Escrito por maedavivica às 08h21
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