Ontem eu disse uma coisa que me surpreendeu e depois fiquei pensando sobre o que havia dito: Levei dois anos para sofrer. Não é exatamente assim, setecentos e tantos dias, mas é mais ou menos. No primeiro ano, com certeza, eu não estava aqui, no segundo ano só me lembro da dor aguda e massacrante e depois, o sofrimento cru. Não estou mais em choque, a dor no peito passou, hoje eu simplesmente sofro, triste e constantemente e será assim para o resto da minha vida, o último estágio do luto, o permanente. No dia nove de julho de 2008 eu tive certeza de que minha filha morreu; naquele dia eu passei a sofrer realmente. Aceitar que aconteceu seja talvez a única melhora possível; é estranho falar de uma melhora quando se fala do maior sofrimento que se possa ter; mas na verdade o que acaba é a expectativa. Talvez seja isso o que as mães de filhos desaparecidos nunca possam sentir.
Escrito por maedavivica às 09h27
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Filha querida, de tudo o que eu já disse a você ou falei sobre você, nada se compara ao amor que tenho. Lembrar é tão bom quanto dolorido, se me lembro do dia em que você nasceu, lembro-me também do seu ultimo dia. A imagem que não sai da minha cabeça, você me beijou, depois olhou para trás e disse que não demoraria. Fomos enganadas; está demorando sim, demorando demais. Já não tenho vida, tenho um tempo indesejável a cumprir, o tempo que meu organismo, meu próprio corpo determina; tenho que esperar que meu fígado, meus rins, meus pulmões entrem em falência ou que meu coração pare de uma vez. A tristeza não mata, ela só destrói. Destrói o animo, o incentivo, a esperança; destrói a vontade e o desejo. A saudade consome o corpo de dentro para fora, embora eu tenha hoje a aparência e o olhar de uma centenária. Perder você me fez odiar a vida. De quanto tempo uma mãe precisa para deixar seu filho partir? Acho que isso não acontece nunca, se viver mais cinqüenta anos ainda levarei você dentro de mim; é a gestação eterna do luto das mães. Seguro, seguro você viva em mim o mais que eu posso, me agarro ao que tenho, seu cheiro, seu som, sua imagem, porque não posso permitir que você vá embora. Seguro as lembranças para segurar-lhe a vida, porque essa é minha vida também, viver o que já vivi; fora isso, minha querida, é passar o tempo; é a contagem regressiva.
Escrito por maedavivica às 08h32
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