Minha vida é uma gavetinha de pequenas coisas; o mínimo dividido em caixinhas; pequenas obrigações e gentilezas, pequenos prazeres e minúsculas alegrias. Filha querida, eis a gaveta da minha vida. Está muito longe o tempo do batom e rímel, dos anéis e brincos; a prateleira de perfumes e bibelôs delicados. Longe demais está o tempo das blusinhas, do jeans não passado, o tempo das bolsas lotadas e tênis espalhados. Pra meu desespero, lá longe estão, grampos, elásticos e presilhas de cabelo; a corrente que carregava a cruz, o pingente com seu nome gravado. A vida de esmaltes e depiladores; papel de cartas, coleção de lapiseiras; seu vestido de festa, pretinho básico, que te deixava tão linda. Salto alto, sandália prateada, botas de inverno; lãs, casacos, gorros e luvas para o frio que você sentia. Cadernos com adesivos enfeitados, rostos famosos de uma revista recortados; fotos emolduradas de amigos; ilusão de sonhos divididos. Tão longe ficou o tempo de CDs tocando ao som do acompanhamento desafinado; dos vídeos, das fitas; da dança descontraída pelo quarto. Aparelho nos dentes, exame de sangue, radiografias; livros, rascunhos, bilhetes, trabalhos começados; sua impressão de um outro dia. Sinto falta de você todos os dias, sua amizade, sua alegria, sua companhia; sinto falta da benção que você era em minha vida. Sinto falta da felicidade de tê-la ao meu lado, do beijo jogado no ar cada vez que eu passava pelo seu quarto, das milhões de vezes que você me chamava, muitas vezes pra nada. Sinto falta de você, minha filha, em cada detalhe, cada significante minuto; essa falta que faz com que meus dias sejam escuros, que minhas noites sejam iguais aos dias. Sem mais propósitos, sem mais alegrias, vivo dessas pequenas caixinhas; ali estão todas as grandes lembranças, o que foi felicidade; ali estão guardadas todas as imagens, catalogadas e etiquetadas como “vida”.
Escrito por maedavivica às 10h31
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