O pior momento do dia é a hora de dormir, aquela hora em que eu fecho janelas, tranco a porta, desligo o computador e a tv; apago todas as luzes. A sensação de solidão e abandono fica mais forte, chega a ser violenta, porque é a hora do filho protegido dentro de casa; da ultima conversa do dia; do beijo de boa noite; do chá gelado no verão; do chocolate quente no inverno; a hora de descansar. Hoje, conforme vou apagando as luzes, o peso da saudade em meu coração vai aumentando; giro a chave da porta que me separa do mundo e me coloca em contato direito com o vazio. O ultimo ato do dia traz um silêncio enorme entre nós duas: Boa noite mãe; boa noite minha filha. O fim de um dia que era produtivo, compartilhado, justificado, hoje não tem mais sentido nem importância, tanto faz como tanto fez. Não tenho mais a sensação de conforto e ânimo que a vida me trazia; deitar e levantar tem o mesmo insignificante resultado. Ainda estou na estrada, onde a morte me levou e abandonou; um caminho de buscas, incertezas, reconhecimentos; de revoltas e questionamentos; de uma profunda tristeza. Estou de mãos atadas em relação à vida; ela não sai de mim apenas porque assim eu quero; nem a morte me ajuda. Tô tão sozinha. Sinto da pior maneira possível o que significa perder incondicionalmente. Esse mesmo ar congestionado, poluído, que entre em mim é o ar que minha filha não respira; pensar nela como um anjo adormecido que acordou no paraíso, pouco suaviza a brutalidade do fato; penso sim naquela carinha de anjo que já não existe. Era minha, meu deus, ela era minha. Hoje vou levar flores pra ela e é como enterrá-la mais uma vez.
Escrito por maedavivica às 11h22
[]
[envie esta mensagem]
|