Mãe Que mãe já não desenhou uma carinha risonha no sanduíche; quem não escreveu “te amo” na cobertura do bolo? Qual de nós já não desenhou corações num bilhetinho? Que mãe já não distinguiu na multidão aquele sorriso; reconheceu a quilômetros de distancia aquele jeitinho; qual de nós já não esperou com ansiedade o barulho da chave na porta? Qual de nós, babando pelo canto da boca, já não disse orgulhosa: É meu filho. Somos assim; o olhar se incendeia só de nos lembrarmos daquela carinha. Mães riem de piadas sem graça; escutam pacientes longas histórias, milhões de palavras. Filhos que morrem são como bebês que não crescem; podem ter ido embora com mais de cinqüenta anos, mas são sementinhas do nosso ventre e serão crianças pra sempre. Mesmo que eles partam adultos, barbados; mesmo que, ainda menina, teimosa insista que é já mulher, que nada, serão sempre recém nascidos frágeis e delicados. Os filhos que morrem são nossos pequerruchos alados; nossos anjos eternizados, bibelôs da nossa memória.
Escrito por maedavivica às 11h40
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A perda foi mesmo irreparável, “inconsertável”. Chega uma hora, do dia ou da noite, em que digo, chega, não suporto mais; tomo meu remédio e espero o sono chegar. Sei que não é um sono tranqüilo pela maneira como acordo, quebrada, a cama toda desarrumada, parece que foi uma luta; provavelmente tenha sido. Acordo, de certa forma, aliviada desse que deveria ser o descanso; abro os olhos e digo, menos um dia. Meu pequeno prazer está nas minhas esculturas e elas vêm mudando comigo. As primeiras peças que eu fiz eram mulheres mutiladas, entranhadas, presas e deformadas, hoje faço anjos e bailarinas. O que mudou em mim? Não sei. Sei que cada peça, cada anjo, vem da ausência; do fato de só ter podido me dedicar a esse prazer, em tempo e dinheiro, com a morte de minha filha. Que preço, meu deus, eu pago por cada pedacinho de argila. Minha cabeça está confusa, acho que, quando muitos sentimentos se acalmaram, outros se exaltaram; hoje sou só tristeza e saudade, mas sou muito amor também e me dedico muito mais a ele do que a dor; talvez por isso eu acabe minha vida modelando bailarinas, anjos e pequenas fadas.
Escrito por maedavivica às 10h17
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