Sinto tanta, tanta, tanta falta de você; só deus sabe quantas vezes tive vontade de gritar, mas o grito fica preso lá no fundo, surge como um gemido, um suspiro, um ai desconsolado. Não falo com ninguém o que realmente gostaria de falar, acho que as pessoas não merecem conviver com esse sofrimento, mas na verdade, eu quero falar de você o tempo todo; quero chorar sua falta abraçada a alguém, mas quem? Já não sei mais como meu raciocínio funciona, como anda minha cabeça; hoje, lendo a noticia de jovens que morreram num rodeio de Jaguariúna, senti uma dor no peito, um medo, pensei: nossa, podia ter sido a Vi. Como se já não tivesse acontecido. Lembrei do medo que tinha quando ia com os amigos para esses rodeios, aquela multidão sempre me assustava ou quando você ia de Serra para Amparo naquela estrada tão perigosa. Tantos medos tive nessa vida relacionados a sua perda; quando você viajava com o grupo de caratê pra outras cidades; quando simplesmente você saía. Nunca te disse nada, pra que você não se assustasse, mas meu coração parava até a hora de você voltar; estive em casa o tempo todo te esperando e hoje sou eu que vou ter que te encontrar. Medos resistem como se a morte não tivesse levado tudo; como se alguma coisa ainda pudesse te afetar; não estradas ou multidões, não acidentes ou doenças, mas alguma outra forma de sofrimento a que eu não tenha acesso; não estou aí pra te ajudar. Por isso, minha filha, é que apesar de tudo, deixo meus braços abertos, meu colo disponível e meu coração inteiro; meus melhores pensamentos são pra você, meus maiores sentimentos são pra você, porque o que eu tenho de melhor é você. Penso então nas mães que ficaram sem seus filhos e queria dizer a elas que essa é a maior luta que um ser humano pode enfrentar, sobreviver aos filhos; que seus dias nunca mais serão os mesmos, que suas noites serão de insônia, que seus corações jamais baterão no mesmo ritmo. Queria dizer a elas que não vai passar, nós é que passamos a viver de outra forma, em outro mundo, incompreensível pra quem não perde um filho; um mundo de remédios e psicólogos; um mundo de dor e incompreensão; um mundo de sofrimento e espera e de uma saudade que não acaba nunca.
Escrito por maedavivica às 08h03
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