Axô nenê.... As mães alem de mães são donas de casa, são profissionais, são os meios de transporte, educação e saúde de seus filhos; muitas vezes vinte e quatro horas é pouco tempo e aí então é que entra uma das brincadeiras mais práticas para as mamães, o esconde-esconde. Um, tês, cato...tô cundida... e enquanto isso, correndo pela casa, já guardamos algumas roupas e recolhemos outras; onde está o nenê...e adiantamos o jantar; cadê você filhinha...e arrumamos a sacola pro dia seguinte. Mãe tem que ser esperta. Mãe inventa coisas que até o diabo duvida. A Vi, como toda criança, se escondia nos lugares mais óbvios e eu via aquela carinha sorridente e inocente como se estivesse me enganando, os olhinhos brilhavam de satisfação; quando ela era bem pequenininha achava que se não podia me ver, estava bem escondida, muitas vezes cobria só o rostinho e eu via aquele bumbum gostoso, aquelas perninhas gorduchas e os pezinhos de pastel, porque que eram fofinhos, os dedinhos de inhoque, porque que eram pequenos e roliços. Hoje não tenho mais profissão, não sou um meio para coisa alguma, vinte e quatro horas são horas demais pra passar mais um dia; acredito que minha filha esteja escondida em algum cantinho desse infinito; numa outra dimensão, noutro estágio, num outro universo qualquer e eu procuro por ela. Se a morte é a metamorfose definitiva, minha filha é a forma mais perfeita de vida.
Escrito por maedavivica às 08h05
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Junho... sinto este mês na pele, nas noites frias, casacos de lã, gorros e luvinhas; você era uma boneca agasalhada. Todas as festas juninas em que fomos juntas, quando todos os doces eram permitidos e o simples era divertido; o dinheirinho separado pras brincadeiras, caixinhas que guardavam surpresas, a pescaria, boliche de mesa; você escolhia um país, jogava as argolas, corria pela escadaria. Como era gostoso, minha filha; a vida tinha cheiro de milho e quentão. O que mais pode doer tanto do que ainda sentir sua mãozinha segurando minha mão? Esses sentidos não passam; constantemente sinto teu cheiro, seu tato, passo as mãos pelos seus cabelos, cheiro seu pescoço, seu colo, vejo o brilho alegre que tem seus olhos. Não tenho certeza se estou no passado toda vez que vejo você; tudo tem um cheiro doce e salgado, sentimentos atordoados que não me deixam entender; será meu deus que é mentira? Já não consigo saber. Fico às vezes tão confusa, é minha vida misturada à sua, é sua morte misturada à minha. Às vezes queria poder me ausentar por um minuto que fosse; um segundo de paz absoluta; sem nenhum sentimento ou emoção alguma.
Escrito por maedavivica às 07h33
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