Já faz tanto tempo que eu perdi até a esperança de parar de sofrer; parece que eu me conformei, não aceitei, mas me conformei em viver. Qual a outra saída? A saudade, as lembranças, o desejo detê-la aqui, assim como determinadas datas, não ajudam a ir em frente; não se esquece um filho como se fosse um romance antigo. Revivo e revivo as mesmas lembranças porque não há novas situações a serem recordadas. Triste é saber que todos os meus dias serão tristes; entender que a morte aconteceu, está concretizada e que o “eu” sobreviveu à tragédia. Já quis acordar Maria, Joana ou Letícia, tanto faz; já quis sair de mim mesma e começar outra história, mas sei que essa é minha vida; sei que esse ser deformado e incompleto respira; sou eu, quase do jeito que eu era; sou a mesma velha Celia! Tenho vivido diariamente uma vertigem, uma desembalada pela ladeira, aqueles momentos estonteantes em que não se sente nada, apenas a vida passa inteira pela cabeça. E nessa queda desenfreada vem o mal estar, o enjôo, a tontura; vem o fato de não me sentir a mesma, tonta com tantas lembranças, com a complexidade de tantos sentimentos diferentes. Cheia, completa, repleta de passado. Isso leva à exaustão, ao cansaço absoluto. Se criar um filho é trabalhoso, perder um filho exaure todas as forças; liquida um ser humano. A cada dia estou menor, mais lenta, baixinha, baixinha...
Escrito por maedavivica às 09h06
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