Ressurgi mais uma vez das cinzas, do buraco de trevas onde me encontrava e quando isso acontece eu me dou um agrado; como coisas materiais já não me interessam, compro um doce bem gostoso, um bolo cheio de recheios e coberturas; lambuza a boca e a alma. E, como me reergui desta vez? Foi assim: Ontem foi o dia mais feio que eu vi em muito tempo, choveu o dia todo, tinha neblina e estava muito frio; de repente ouvi o interfone e era minha irmã que tinha vindo me visitar. Cris, sair num dia desses, atravessar um longo caminho pra vir me ver.... Não tem dinheiro no mundo que pague. Como quando a Cle levantou da cama às seis da manhã pra comprar um peru, descongelar, assar e vir ficar comigo em pleno reveillon. Cla, meu irmão, que vem de longe pra me levar passear e ver o mundo lá fora; meu sobrinho Lu que arruma um tempo em seu dia a dia corrido e vem ficar comigo. Alê, Tito, adolescentes ainda, meninos enfrentando a dor da morte; meu pai que eu sei que sofre de uma saudade imensa, que chega aqui desconcertado sem saber o que dizer ou fazer por mim. Minha mãe, mãe e avó, que anda muitas quadras pra chegar até aqui, dolorida com a perda de uma amiga, mais do que uma neta; me traz feijão, seu famoso e carinhoso feijão. Tenho amigos que me querem bem e sentem minha falta. Tem sido assim; confesso que demorei um tempo, aliás, tempo demais, pra perceber de eu havia me fechado, me tranquei numa dor tão profunda que não dava abertura pra ninguém se aproximar de mim, mas eles sempre estiveram aqui do meu lado. Não há como lutar contra essa morte, superar essa falta tão sentida; espero ter finalmente percebido que se eu, a maior parte das vezes, não consigo subir à superfície, eles descem comigo até o buraco.
Escrito por maedavivica às 12h23
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