Vi, minha querida Domingo passei por nosso antigo apartamento, não entrei é claro, mas só de olhar aquela porta de entrada....foi um choque brutal, arrepiante, eu a vi entrando em nossa casa, vestida de jeans, blusinha branca, linda como antes. Foi como se tudo tivesse parado, tive um impulso de sair do carro e subir as escadas; tinha a nítida impressão que a vida continuava; você estaria lá dentro, rindo despreocupada. Revivi cada instante intensamente, dolorosamente, nossa sala, nosso banheiro, o quintal, meu quarto, o quarto de onde você saiu pra sempre. Filhinha, não leve a mal, procure entender, eu só queria poder esquecer, não me lembrar de nada; se é difícil dizer que a dor cansa, cansa também e muito a saudade; eu fui ficando esgotada. A rotina da tristeza; a cabeça que lateja, no choro que eu muitas vezes não choro pro coração enfraquecer, um dia ele tem que ceder. Me doem os dentes, o maxilar, porque eu travo o ódio; cabelos caindo; a inflamação nos olhos; músculos atrofiados. Esse é o resultado de viver sem sentido, obrigada, de amanhecer sem esperança, de não ter futuro, de estar... simplesmente cansada... Vi, minha querida, fiquei totalmente arrasada; guardei no peito as lembranças, fui embora pra casa; ficou ali, naquela entrada, naquela porta fechada, seu ultimo ano de vida.
Escrito por maedavivica às 20h51
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A solidão tem formas, assim como as nuvens. Um gato empoleirado; braços redondos, cumpridos, quadrados; longos pés afunilados; são balões, corações, olhos arregalados. São como desenho animado, leões, ursos polares; são borboletas, libélulas, aves, são bichinhos de pelúcia desenhando minha angustia nos ares. São rostos de algodão desfigurados, de um inábil artista com lápis desapontados; são folhas, ramos, arvores; são como minha saudade, gigantescas figuras. Riscos, rabiscos, formas, tudo some como minha alegria; vão sumindo, sumindo num traço fino até o nada. Vão e voltam inúmeras figuras; tem ali uma flor despetalada; tem o que de longe parece ser uma estrada; tem cachoeiras; tem muros; tem rochas; frutos de formas arredondadas. Tem um anjo que eu vi um dia numa luz desmaiada; longas asas de um branco mais branco; reconheci seu riso e seu pranto; a saudade pintada de preto; longas mãos tocaram meu peito, apertaram meu coração e levaram minha alma. Não consegui passar por esta vida sem me atrever à poesia, aos encantos da madrugada. Não deixei que não fizesse sentido; que passasse batido; acreditei em palavras sábias e premonições caseiras; a beleza teve uma importância muito grande em minha vida. Você filhinha...
Escrito por maedavivica às 09h22
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