Parece que eu apanhei, de noite vem alguém e me bate, bate, bate; é a vida que não me deixa dormir; que respira no meu nariz, saliva na minha boca. Ela nunca pára para o meu descanso, memórias inconscientes, reflexos antigos, contrações musculares, o ranger dos dentes; a luta noturna contra a realidade. Minha noite é um longo gemido. Apoio a mão no rosto, aperto o peito, sacudo o esqueleto; só quero que mais essa noite passe; com certeza resmungo, gemo, talvez eu babe. O travesseiro que sonhava comigo já foi um amigo; hoje é o meu maior desconforto; é quando eu mais penso e recordo; às vezes sorrio com lembranças deliciosas, às vezes choro. A vida não me deixa morrer sossegada, por mais que eu esteja deprimida, ela me puxa, me sacode; tenho necessidades fisiológicas, tenho sede, tenho fome. E se tenho essas necessidades, penso no propósito de estar aqui; o que justifica minha presença? O que mais tenho que fazer pra poder partir? Esperar a morte não é um passa tempo, tenho que cumprir o que um dia foi combinado; sei hoje que esse acordo foi uma péssima idéia e resgata definitivamente minha passagem pela terra. Que dor pode ser maior, que experiência terrena pode ser mais intensa? Diz vida o que você quer de mim? Que eu me conforme, que eu progrida, que eu aprenda? O que?
Escrito por maedavivica às 08h54
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