As madrugadas me fazem pensar mais e às vezes me lembrar de algumas coisas que ficaram como névoa em minha cabeça. Lembrei do olhar assustado da minha família; da aflição em que se perguntavam: e agora? Não sei ao certo quando foi que percebi esses olhares; quanto tempo já fazia, mas me lembro de feições apavoradas. Tenho certeza que ninguém acreditava que eu pudesse chegar até aqui; três anos e sete meses; quando penso nesse tempo, acredito que estive desacordada. Até hoje me pergunto: o quê eu não digeri totalmente? Numa dessas madrugadas acordei me questionando se tive mesmo uma filha; A Vi existiu ou foi um sonho? Por alguns segundos não sabia mais distinguir a realidade. Até onde eu entendo essa morte? Lembranças viram névoa novamente e eu penso se um dia toda a barreira entre a realidade e a fantasia em que vivo vai cair. Eu simplesmente vou seguindo como cega, surda e muda; como quem não quer acreditar, talvez quando eu encarar o fato, pra minha sorte, enlouqueça de vez. Sinto que a família está mais calma em relação a continuar vivendo, sabem que eu estou aqui, tentando e de algum jeito conseguindo. Sei que posso contar com eles o tempo todo, qualquer emergência física ou emocional, mas o difícil tem sido encarar o dia a dia. Tudo o que eu tive que aprender sobre mim mesma; tudo que eu tive que encarar como vida; a dor gigantesca que eu sinto quando lúcida e a saudade que não acaba nunca. Milhares de lágrimas já rolaram por este rosto; brotam sem querer, de repente, mesmo quando eu não entendo o que está acontecendo. Minha filha morre em mim todos os dias porque eu nunca consegui sair realmente daquele momento; eles se misturam com lembranças antigas, como em um vídeo que para na metade e volta pro começo. Meu bebê, minha menina, a companheira, a amiga, a filha moça que eu sempre quis ter; parou aí a minha vida; a mulher que nunca chegou a ser, a mãe maravilhosa que seria, a esposa incrível, a profissional brilhante e mais que tudo, minha filha. Minha força talvez os ajude, só não sei de onde ela vem.
Escrito por maedavivica às 09h31
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