Minha querida filha, Eu ainda ouço você me chamando, se são sons tão conhecidos, se são novos sons, não sei; sei que dói de uma maneira muito profunda quando um filho distante chama. A impotência que eu sinto por não poder responder; o medo de que seja um chamado de dor, de solidão ou de saudade; porque sei que se você existe; seja na forma que for, sente a nossa falta. Aí é que eu questiono o paraíso. A nossa separação, minha filha, pra mim representa a ausência de todas as coisas que já tiveram importância; gostaria muito de pensar que não está sendo assim com você. Se eu pudesse desejar alguma coisa, dentro desta insanidade absurda que foi sua morte, desejaria que você permanecesse dormindo até a hora de eu chegar; eu te acordaria com um beijo de bom dia, como se fosse simplesmente o dia seguinte. Penso às vezes em levar você junto comigo, acredita, eu que perdi a vontade de sonhar, às vezes penso em ter uma casinha térrea, um jardinzinho florido, bem longe desta loucura paulistana. Queria poder ir pra uma cidadezinha bem pequena, com um único mercadinho, uma farmácia, uma pequena pracinha e gente estranha. Só nós duas; distanciar-me de quem é vivo e feliz, tornou-se uma necessidade de sobrevivência. Na porta dessa casinha eu colocaria uma placa: Atelier da Vitoria. Ali passaria o resto de meus dias esperando por você, cuidando da nossa casinha, do nosso jardim, esculpindo anjos. Mas querida, não vai dar, não nesta vida, porque eu perdi até mesmo o desejo de desejar. Tenho feito o melhor que posso, do jeito que consigo; talvez eu nem esteja sonhando, mas visualizando a próxima vida. Será? Quem dera.
Escrito por maedavivica às 07h44
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